APRESENTAÇÃO | PROGRAMAÇÃO

Mostra Anos 1990 - Retomada do Cinema Latino-Americano

Desde o início dos anos 1980, os modelos cinematográficos desenvolvidos na América Latina nas décadas anteriores entraram em crise. Em meio a um período de abertura política e inserção da região na economia mundial, a produção audiovisual precisava repensar seus rumos.

As formas de fomento ao cinema, geralmente com subsídio do Estado e sem participação da iniciativa privada, começaram a ser criticadas por cineastas e pela opinião pública, que desejavam a diminuição do poder estatal. Os projetos narrativos também entraram em cheque quando o ideário político dos cinemas novos dos anos 1960 se viu frágil perante um mundo globalizado.

Essa crise resultou na diminuição da produção de longas, no desinteresse de festivais internacionais por filmes latino-americanos. No Brasil, esse período culminou com a drástica política cultural e econômica do governo Fernando Collor, que extinguiu organismos e inviabilizou a produção cinematográfica. Mas foi justamente no período de crise dos anos 1980/90 que surgiu toda uma geração de jovens cineastas, com grande domínio técnico e narrativo, resultando na transformação do cinema latino-americano nas décadas seguintes.

Vindos de cursos de cinema e de produtoras independentes, esses jovens se entregaram inicialmente à produção de curtas-metragens e, aos poucos, foram viabilizando projetos de longas, num movimento conhecido no Brasil como “Retomada do Cinema Brasileiro” – denominação que se pode tranquilamente ampliar para “Retomada do Cinema Latino-Americano”.

Na retrospectiva 2009 do Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo estão títulos que representam a multiplicidade de propostas do cinema realizado nesse período, característica da produção na América Latina até hoje. Marcam presença a comédia com pano de fundo histórico (“Carlota Joaquina, Princesa do Brazil”, de Carla Camuratti), a mistura de MT V com sertão (“Baile Perfumado”, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas) e a abordagem das populações marginais, não mais pelo tratamento sociológico, mas pela construção de narrativas pungentes (“Um Céu de Estrelas”, Tata Amaral; “Os Matadores”, Beto Brant; e “Rodrigo D: no Futuro”, do colombiano Victor Gaviria). Destacam-se também a apropriação do cinema de gênero (pelo mexicano Carlos Carrera). E a renovação do cinema argentino através da abordagem das relações familiares em filmes tão distintos quanto os de Daniel Burman e Pablo Trapero. São obras que marcaram o impulso inicial para o retorno da produção nacional na década de 1990.

Para acompanhar cada longa-metragem foi selecionado um curta produzido nos anos 1990 e dirigido por um cineasta que na década seguinte realizaria seu primeiro longametragem, obtendo reconhecimento de público e crítica.