Yo, Imposible; por Vivian Belloto

O corpo que se desconhece, mas que vibra, que avisa, que deseja. Corpo vivo que respira, espia, sente e sofre. Corpo mutilado, universalizado como um manequim. É assim, em meio aos focos e os desfoques de corpos vivos e pedaços de corpos plásticos que flutuam na tela – fazendo brecha para vermos o que se passa em cena – que o espectador é apresentado a ofegância do que seria o primeiro sexo de uma jovem. Sua expressão de apertar os olhos e a boca, por trás dos corpos que parecem ex-votos, nos revela uma dor insuportável, um sexo que sangra, que assusta a protagonista por ter sentido algo que estaria longe de ser o prazer. O corpo feminino, antes encurvado pela timidez, agora se encurva pela dor que persiste pós-sexo.

Ariel (Lucía Bedoya) – nome dado tanto para o sexo masculino quanto o feminino – personagem central de Yo, Impossible – segundo longa-metragem de ficção da diretora venezuelana Patrícia Ortega – é uma jovem que provavelmente nunca havia se tocado antes de ter sua virgindade explorada por seu suposto namorado. É a partir desse momento que seu corpo a comunica sobre algo, no qual a protagonista inicia um processo de descobrimento e estranheza da sua sexualidade. Enquanto somos apresentados as descobertas e desconfianças de Ariel, o longa nos mostra relatos de pessoas outras sobre seus próprios corpos em frente a uma câmera.

A câmera da diretora foca no espelho que mostra o corpo de Ariel como um chamado para o autoconhecimento. Essa mesma câmera foca e desfoca os personagens, visando dar ênfase as particularidades de cada corpo presente. Não somente, é a câmera que coloca os personagens de escanteio, os põe à margem da tela ao mesmo tempo que não deixa claro, a princípio, do que o filme irá tratar. Se torna uma investigação, tanto da personagem quanto do público, sobre o desconhecimento de seu corpo.

O corpo de Ariel é colocado em existência e permanência em diversos locais, seja no já citado momento do sexo, quanto no momento de trabalho. Ariel trabalha em uma fábrica de costura, essa que as tramas produzem o esconder do corpo nu, são matéria-prima para a produção de vestimentas. Roupas que têm o papel social ocidental de definir gênero e de esconder o profano. Tramas entranhadas na noção ocidental de mundo, assim como a universalização de um corpo padrão. Corpo que não é permitido a variação genética, dado que será visto como errôneo, incomum, fora de órbita, submetido a exclusão do que nos seria mais essencial: o convívio social. E para que isso (a exclusão) não ocorra, é que os corpos se moldam, sofrem para se encaixarem, estando sujeitos, portanto, a qualquer operação que os normalizem. Mas ao submeter o corpo às cirurgias de correção estética, por exemplo, comete-se um erro ao esquecer que o corpo não está segregado da alma/mente, o que acarretará em diversas questões psíquicas ao paciente.

A fábrica de roupas é um dos locais de trabalho definidos, rigidamente, como um ambiente laboral na sociedade, ocupado quase que exclusivamente por mulheres. É nesse ambiente que surge um dos conflitos da narrativa, afinal, na ausência de uma das funcionárias, que no caso é a mãe da Ariel, uma nova funcionária é contratada. Essa que Ariel troca olhares e é pega usufruindo do seu desejo com a nova funcionária por outra costureira. Agora, a câmera faz o recorte dos olhos. Olhares que julgam a homossexulidade, o beijo, o toque. Também olhares que exalam desejo e que se tornam hipócritas ao quererem o mesmo, contudo, se não conseguem, se tornam olhares capazes de atingir o outro de forma brusca. Diante disso, o filme trata da não permanência de um corpo lésbico no ambiente de trabalho, simplesmente pela mera vontade julgadora do outro, pela falsa noção de normalização e pela negação e respeito pelos desejos.

Ao mesmo tempo em que Ariel se curva pelas dores causadas pelas tentativas de transar com seu namorado, a personagem continua indo visitar e cuidar de sua mãe enferma em um hospital precário, vazio, silencioso. Sua mãe, que aparentemente regia a vida de sua filha até se encontrar neste estágio de sofrimento causado por uma doença que lhe causou a queda de cabelo e que aos poucos a despede da vida, percebe em Ariel um desconforto e pede para que busque a médica que sempre a cuidou desde pequena. Essa médica indica o toque de seu corpo diariamente a partir de um objeto fálico, que causa mais dores. Ao longo do tratamento, Ariel se inconforma com o que não está sendo dito por sua mãe e pela médica, sabe que existe um segredo desnecessário sobre seu corpo. Em um momento de raiva, destrói o objeto fálico, em uma imagem que emerge a não aceitação da cultura da penetração e da falsa normalização dos corpos.

Ariel tem o corpo acuado o filme inteiro, um corpo que revela cansaço pelas jornadas de trabalho na fábrica, no campo, na ida ao hospital e na investigação de si mesma. Atraída pela nova funcionária, essa que fora demitida, a convida para ir a sua casa, momento esse que revelam-se corpos. O corpo de Ariel é diferente. Ariel encontra suas fotos antigas, no qual seu corpo se revela ser outro. Indigna-se. Com razão. Já não sabe mais quem é. Expõe a sua médica que descobriu o segredo, contudo não sabia dar nome ao que se tratava. Intersexual. Ariel nasceu com os dois sexos, masculino e feminino. Sendo submetida, independente de suas escolhas tardias, a diversas cirurgias de normalização. Assim, o filme denuncia a prática cirúrgica de normalização das genitálias em caso de intersexualidade, visto os transtornos de identidade causados, tanto na protagonista quanto nas pessoas que relatam suas experiências durante o filme.

Eu, impossível” discute a autonomia do intersexual diante de sua identificação com um gênero, ou não. Revela os sofrimentos de um ser intersexual que foi mutilado no momento de seu nascimento. Também mostra o outro lado, o lados dos pais que não sabiam do que se tratava tal diversidade genética e que confiaram no sistema de normalização científica visando o melhor para seus filhos. O filme trata do sofrimento social de enquadramento, de pertencimento e identidade. Reflexiona sobre os corpos, que se esbarram na rua, que convivem juntos, mas que não se enxergam, se respeitam. Patrícia utiliza constantemente manequins como forma simbólica de padronização dos corpos.

Em vista disso, “Yo, Impossible” questiona os papéis sociais, a construção de gênero e o sofrimento causado ao corpo/alma de todos. Nos deixa intrigados e cientes da existência natural da variação genética ao mesmo tempo que fala sobre desejo e amor. Pois, é num suspiro de gozo que o filme se despede do espectador. É no som gutural do desejo que os corpos se revelam comum, independentes de sua formação. Ariel parece tranquilizar sua postura depois de finalmente ter escutado a si mesma, e não ao que a sociedade religiosa de seu pueblo, em que está inserida, insistia para que ela se tornasse.

Tudo termina em um gozo. Um gozo de libertação, mas que claro, não pode ser romantizado em vista do contexto social que a américa latina e muitos outros continentes estão imersos hoje, afundados na negação da diversidade moderna que não resulta em nada a não ser no sofrimento causado a todos que nascem, literalmente, na contracorrente dos padrões sociais e morais.

Scroll to top