Rainha Nzinga Chegou; por Sérgio César Júnior

A instituição escravidão fundada pela Coroa portuguesa nos séculos XVII e XIX legitimou a manutenção do comércio negreiro nas suas antigas colônias na África e na América. O extinto tráfico de escravos africanos abrira no Oceano Atlântico uma rota marítima, onde estão conectados os atuais Brasil e Angola. Embora estejam abolidos nos dois continentes a escravidão, tráfico negreiro e regime monárquico lusitano, ainda assim, atualmente ambos países vivendo sob os regimes independentes e republicanos mantêm entre si relações comerciais, culturais e preservam suas manifestações religiosas ancestrais. A distância geográfica não interfere na sintonia entre brasileiros e angolanos, pois há semelhanças históricas nos dois processos de formação social. Rainha Nzinga Chegou (2019), dirigido por Júnia Torres e Isabel Casimira, é um documentário que nos coloca na trilha memorial da respeitada homônima rainha e guerreira do povo Ndongo, a qual declarou guerra aos colonizadores na antiga região do Golfo da Guiné, no século XVII.

Após a abertura em fundo escuro com os dados de produção de Rainha Nzinga Chegou, identificamos algumas imagens fílmicas de um antigo documentário em formato super 8 de uma celebração da festa de Nossa Senhora do Rosário. Nessa cena inicial o movimento de planos se faz em rápida velocidade em sequências de curta duração. Vemos planos conjuntos próximos e alguns enquadrados em plongée, das mãos espalmadas dos percursionistas batucando os tambores, durante uma cerimônia noturna da guarda de congado, ou de moçambique “13 de maio”, ocorrida em um espaço interno do terreiro de culto afro-brasileiro. Entre os planos dos percursionistas e dos participantes nas danças e cantos celebrando o evento, surge em plano médio um casal representando os reis do povo Ngola, “Chico rei e a Rainha Nzinga” vestindo trajes de realeza e portando sobre cada cabeça uma coroa. Ouvimos em voz-over, os comentários do narrador apresentando o candombe. Do espaço privado do terreiro para a rua, a música e a dança do candombe deram origem ao congado.

A festa de Nossa Senhora do Rosário é celebrada pela guarda de moçambique em rito religioso misto, sendo parte do ritual iniciada durante a noite no terreiro e finalizada durante o dia na igreja católica. Na passagem de cena (do terreiro para a igreja), o cortejo de homens da guarda 13 de maio está na rua. Os membros dessa guarda estão vestidos uniformemente, com camisas, calças e saias de cores azuis, amarelas e brancas. Cada componente da guarda além de portar algum instrumento de percussão como caixa e pandeiro, também agitam alguns chocalhos que estão atados a suas canelas. Na outra cena, a mesma guarda aparece toda vestida de branco junto com a rainha e o rei, em frente à porta da igreja, aguardando pela recepção do padre. Dentro da igreja durante a missa mista, o casal real homenageado pela guarda do congado entrega ao padre suas coroas para serem abençoadas e recebem das mãos do sacerdote cristão a hóstia. O plano escuro com título do filme é o raccord para as cenas seguintes com a continuação da performance da guarda, nos dias atuais e com a visita à Angola, a terra natal da Rainha Nzinga, pela Isabel “Belinha” Casemiro Gasparino Martins, filha da rainha da segunda geração de congado 13 de maio.

Três gerações de mulheres descendentes de africanos escravizados e trazidos do Golfo da Guiné, onde estão localizadas as atuais República Democrática do Congo e Angola. Mulheres fundadoras e preservadoras da tradição da guarda de congado e de moçambique em Betim – MG, numa região distante do mar. As únicas referências ao ambiente marítimo que a população de Minas Gerais tem em seu imaginário em suas localidades são o município de Mar de Espanha e a formação montanhosa conhecida como “mar de morros”. A conexão de “Belinha” Casemiro com Angola se dá de maneira forçada nesse documentário, a filha da Rainha da primeira geração da guarda 13 de maio, após participar de algumas das festas de Nossa Senhora do Rosário e relatar algumas de suas experiências é obrigada a deixar as atividades do congado para a sua filha mais velha assumir o “coroado”.

O raccord para a cena do funeral é feito com as imagens do mesmo filme super 8, apresentando o trecho não exibido inicialmente, juntamente com o áudio em voz-off gravado da voz da rainha da segunda geração. Segundo a rainha, na “guarda ancestral” os “capitães” e “reis” hoje estão em um algum lugar intangível pela realidade humana festejando o congado. Na cena do velório de despedida à Rainha, em torno do caixão, os membros do moçambique entoam cânticos e fazem as orações de culto afro-brasileiro. Após o cortejo funerário em Betim, nos defrontamos diretamente em plano geral com o mar de Luanda. Na praia do litoral angolano, Belinha Casemiro e seu companheiro remagnetizam colares e rosários. As imagens em Luanda mostram o casal visitando o Museu dos Reis do Congo, participando de cerimônia privada nos túmulos dos reis do Congo, missas de rituais mistos na Igreja Católica, e a principal das visitas é do sítio onde viviam Rainha Nzinga e o guerreiro Kiluanji. As informações sobre os reis do Congo obtidas no museu, como as no sítio a céu aberto onde viveu a rainha Nzinga no interior de Angola são obtidas por meio da memória oral dos cicerones locais. Não vemos fontes escritas nem imagéticas de valor histórico que comprovem a existência desses dois chefes guerreiros. As únicas provas materializadas seriam as formas dos pés atribuídas à rainha quando jovem, encontradas no solo rochoso, as quais, Isabel entusiasmada e descalça encaixa seus artelhos e canta versos em refrão: “Eu pisei na pisada da Nzinga…”. Essa experiência no sítio memorial dos reis de Ngola e de tocar os pés “na pisada da Nzinga” foi a fase principal da transmissão do legado espiritual.

O contato com o mar de Luanda, mais o passeio no sítio onde estão protegidas as pegadas de Nzinga e Kiluanji e o encontro com os angolanos no interior do país lusófono africano deram à Isabel Casemiro a consagração de ser a nova rainha do congado. Depois de ser coroada na praia de Luanda, a rainha encerra a sua visita olhando para o Atlântico, em direção ao Brasil, para estar no meio de seu povo em volta do mar de morros das Minas Gerais. A conexão Brasil e Angola se mantém sintonizada em presença física e de espírito, o que faz com que a guarda 13 de maio seja o elo espiritual desse vínculo entre os dois países lusófonos, pois basta seguir a pegada da rainha para ser coroado no mar de Luanda.

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