La Música de las Esferas; por Gabriela Justine e Pedro Bezerra

La Música de las Esferas é um documentário de Marcel Beltrán em que o cineasta retrata o amor de seus pais Maurício e Regina, em uma longa viagem por lugares que marcaram suas histórias. O filme, narrado em primeira pessoa pelo próprio cineasta, consegue transitar com grande sensibilidade entre o particular – relatando os entraves vividos por seus pais e tudo que tiveram que superar – e o geral, sobre uma Cuba pós-revolucionário, do entusiasmo de seu projeto a cotidianidade crua de seus habitantes.

Filmado com longos planos fixos que acompanham a história de amor e resistência de Regina e Maurício, Marcel por vezes nos apresenta paisagens, por outros nos aproximam com planos fechados. O cineasta acompanha o casal em uma longa viagem contextualizando os lugares por onde passam, entremeando a leitura de correspondências trocadas nos últimos anos. A exibição de fotografias antigas e o retorno a lugares importantes ajudam a relembrar momentos e situações que marcaram a história de amor do casal vivida por mais de 35 anos e, ao mesmo tempo, nos apresenta as contradições sociais e raciais vividas em Cuba.

A viagem se inicia em Moa, município da província de Holguín, onde encontram uma tela pintada por Maurício exposta há anos no hall de um hotel. Esse local, que recebera nos anos 80 uma nova geração de artistas para realizar serviços sociais e culturais simpáticos aos ideais revolucionários, foi o escolhido por Maurício e Regina para iniciarem suas vidas de casal e viverem para si, longe de suas casas. Foi em Moa que nasceram seus dois filho, incluindo Marcel, o diretor do filme.

Regina, nasceu numa família de 12 irmãos, tradicional, patriarcal e proprietária de terra. Ela, artista simpatizante dos ideais revolucionários, conheceu Maurício, artista, homem de origem pobre e negro, tendo sua família participado ativamente da concretização da Revolução cubana.

Assim, o filme segue pela viagem do casal a casa dos familiares de Maurício, em San Luis, província de Santiago de Cuba, momento em que ficamos sabendo que sua família estava envolvida nas tarefas da Revolução, que a avó de Beltran participou da nacionalização das propriedades. Somos apresentados a uma família pobre que mora em uma casa simples. A viagem através deste território nos coloca diante da realidade de uma classe que foi capacitada pela Revolução, que alcançou a autoconsciência proporcionada pelos avanços sociais vividos pela sociedade cubana. Destaca-se a fala de uma parente que defende a permanência em Cuba numa época como hoje, quando o objetivo de tantas pessoas é deixar ou deixar de sofrer as privações de ficar.

Nesse momento da viagem, o casal que resiste aos conflitos familiares ao longo dos anos, se separa. Regina ruma para casa de seus familiares comemorar o aniversário de 85 anos de sua mãe. Uma festa com ares fúnebres, que lembram a todo momento a figura imponente de seu pai Everaldo Fernández, proprietário que perdeu terras e empresa, desapropriado pelo projeto de nacionalização no início da revolução cubana. Os aspectos tradicionais do patriarca da família, marca a fundo a histório do casal, pois é a recusa em reconhecer a união de sua filha a um negro de família pobre, com relações próximas a revolução, que faz com que Regina e Maurício construam suas vidas em outro lugar. O ressentimento com todo esse contexto é explicitado neste momento em que as recordações daquele momento são afloradas, além da ausência de Maurício.

O reencontro do casal retoma a ideia que resistência e união que consolidou o amor entre os dois. Um relação de companheirismo e ideais que é mostrada ao longo de todo o filme nos momentos em que estão a sós. Em alguns momentos buscam, em seus computadores, alguns planetas, ao mesmo tempo em que pintam, ou escutam gravações com reflexões filosóficas e espirituais. Esses parecem ser momentos de grande ligação entre o casal onde buscam superar as tensões e dores que os acompanham, admirando silenciosamente as estrelas como deixa entender a narração. Para eles o silêncio nos remete a importância do sentir sobre o falar.

La música de las esferas, é uma homenagem póstuma ao pai, proveniente do documentário Mano de Padre de 2016. Neste Marcel dedica-se a apresentar a sutileza e a força deste amor que esteve junto por mais de 35 anos, enfrentando a perversidade oriunda do preconceito racial e social.

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