Ganga Zumba; por Sérgio César Júnior

As produções brasileiras do Cinema Novo, entre os anos 1950 e 1960, nos fizeram perceber o tom crítico de seus realizadores à formação social, política e econômica do Brasil. Esteticamente, os jovens realizadores cinema-novistas construíram imagens, as quais se tornaram vozes reflexivas e contestadoras às visões de nosso passado colonial e republicano representado na história oficial. A grande parte dessa produção fílmica traz a público um debate sobre a escravidão, negritude e racismo. Uma das obras que aborda um dos episódios do período colonial-escravocrata é Ganga Zumba (1963), dirigido pelo cineasta Carlos “Cacá” Diegues. O filme é uma coprodução franco-brasileira com o roteiro de Leopoldo Serran, Rubem Rocha Filho e Cacá Diegues baseado no romance homônimo de José Felício dos Santos. O personagem principal é Ganga Zumba, líder-fundador do Quilombo dos Palmares no século XVII, na Serra da Barriga, atual Estado de Alagoas – AL.

Nos planos iniciais após os créditos de produção de Ganga Zumba, surgem as conhecidas aquarelas da América portuguesa, de Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e Johan Moritz Rugendas (1802-1858) com temas de paisagem natural, plantações de cana-de-açúcar, engenhos e escravos africanos. As aquarelas de Debret e Rugendas serviram de inspiração cenográfica a Cacá Diegues e ao diretor de fotografia Fernando Duarte. As imagens das cenas coloniais permitiram ao fotógrafo repensar a forma de explorar as tonalidades da luz tropical incidida no filme em branco e preto e acentuar o tom de dramaticidade nos enquadramentos de câmera. Durante o dia nas cenas em campo aberto, percebemos a densa luminosidade solar estourando na parte interna da lente, criando áreas de fortes contrastes como nas partes sombreadas pela vegetação, ou nos ambientes fechados. As resoluções tomadas pelo fotógrafo nas filmagens noturnas foram a utilização da iluminação de candeeiro e do clarão da fogueira.

A diegese de Ganga Zumba se inicia em cena noturna com uma atmosfera sombria e melancólica. Em planos conjuntos próximos e inteiros estão um grupo de escravos portando os tocheiros acesos, entoando cânticos fúnebres e dançando ao redor de um homem negro morto, cruelmente dependurado no pelourinho da fazenda. Na varanda da casa-grande está o senhor de engenho, o capataz e a mulher recém-viúva. A presença do senhor de engenho assistindo a tudo em silêncio, com o olhar frio e reprovador foi o sinal para que os participantes cessassem o rito funerário e voltassem constrangidos à senzala. Então o patriarca se adentra à casa-grande seguido de seu capataz que retira o chapéu em respeito ao finado. A viúva desce da varanda e caminha em direção ao defunto desatando de sua cintura um tecido, o qual de imediato o pendura em seu ombro esquerdo até chegar diante do pelourinho para se ajoelhar e velar o corpo. Nesse plano conjunto inteiro da viúva ajoelhada diante do seu finado companheiro, percebemos que gradualmente a lente vai perdendo o foco, formando um efeito ilusório semelhante ao de fotograma negativo. Ao olharmos os dois corpos frente a frente, temos a impressão de serem duas chamas brancas perdendo a potencialidade luminosa até se apagarem por completo.

No elenco de atores de Ganga Zumba vale notar a virtuose de Léa Garcia, atriz portadora do espírito de encenação do Teatro Experimental do Negro – TEN (1944-1961), assim como os talentos dramáticos dos atores Luísa Maranhão (Dandara), Eliezer Gomes (Sororoba) e Antônio “Pitanga” Sampaio (Ganga Zumba). Léa Garcia parece estar bem à vontade em seu papel da mucama namorada de Ganga Zumba. Na cena diurna, sua personagem surge caminhando pela fazenda com passos leves, sorridente, levando no ombro esquerdo um saco com roupas para serem lavadas no riacho mais próximo. A personagem de Léa Garcia aparece esbanjando sensualidade e energia motivadora que a permite cantarolar fluidamente uma das canções do musicista Moacir Santos (1926-2006), compostas para esse filme. No plano geral seguinte surge Ganga Zumba enquadrado pela cabeça e parte dos ombros sustentando alguns feixes de cana em forma de cruz, alusão direta a um redentor que carrega seu fardo e é o escolhido para libertar o seu povo das mãos do opressor. Ao fundo há uma enorme extensão do canavial. A música instrumental não-diegética na banda-sonora tem um solo de atabaques soando freneticamente, como se anunciasse a chegada do herdeiro direto do rei Zimba, da nação Banto (Ganga Zumba). O então herdeiro africano joga os feixes de cana na mesa do carro-de-bois estacionado à sua espera e sobe para ser conduzindo como um imperador em uma biga romana para receber o triunfo do seu povo.

Em Ganga Zumba, Cacá Diegues mantém equilibradas na diegese as linguagens verbal, corporal e de símbolos visuais. No trecho da tocaia ao capataz na beira do riacho, em plano geral e em plongée está a personagem de Léa Garcia seduzindo a vítima lançando olhares e gestos sensuais que o atraem até o local onde será executado por Ganga Zumba. Durante a fuga para Palmares surgem na trilha da mata alguns símbolos que são sinais de proteção espiritual, como por exemplo uma caveira de boi encontrada no acampamento improvisado dos escravos rebelados. Outro símbolo encontrado é uma imagem do orixá Oxumaré, a serpente que morde o próprio rabo, o símbolo da família de Ganga Zumba, que aparece gravado no caule de uma árvore, como sinalização visual para orientar os fugitivos na trilha certa à comunidade quilombola de Palmares. Sinais de proteção, de espiritualidade e desejos manifestados percebidos pelos órgãos dos sentidos humanos de quem por muito tempo foi tratado como mero objeto de posse e impedido de ser alfabetizado nas instituições de ensino nas metrópoles e nas colônias.

Como um dos filmes brasileiros que compõe a lista de produções expressivas do Cinema Novo, Ganga Zumba de Cacá Diegues nos apresentou outra possibilidade de se fazer uma leitura do período colonial, sobre um dos temas históricos que foi durante muito tempo, sendo omitido no discurso oficial comemorativo de nosso País. De um modo geral, a visão do cineasta ao assunto da resistência de Palmares nos faz aproximar das formas estéticas das expressões culturais e espirituais dos valores africanos em nossas terras.

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