Eu Menina; por Daniela Gillone

Uma pequena casa de palafita, com acesso às águas e à natureza selvagem da Patagonia na Argentina, integra o ambiente físico e sensorial da narrativa. O cenário idílico e os sentidos da vida em liberdade vivenciados por um casal avesso à lógica do capitalismo são deflagrados pela visão crítica de uma menina. O que se busca é a elaboração de uma infância de dificuldades e de um olhar de criança que desconstrói o idílio familiar e o estilo de vida hippie do pai e da mãe.

Parte-se do próprio universo subjetivo da filha Armonia (Huenu Paz Paredes), em seus sentimentos ambivalentes pela mãe Julia (Andrea Carballo) e pelo pai Pablo (Esteban Lamothe), e em seus questionamentos sobre a vida junto a natureza sem acesso à escola, produtos industrializados e televisão. Sua repulsa ao núcleo familiar a conecta a outros núcleos pelos sentidos. Na selva, a menina com um aparato tecnológico acredita se comunicar com seres de outro planeta e diz que esses seriam seus verdadeiros parentes. Tais enquadramentos sugerem que o imaginário é o seu refúgio e a natureza a acolhe em sua angústia, enquanto a casa é o lugar dos enfrentamentos.

O sentimento de despertença demarca a visão subjetiva da menina e também a sua fala. Armonia se dirige aos pais por seus nomes próprios e não por mãe ou pai. Renegar a mãe em seu estilo de vida hippie e querer uma outra vida são condições postas pelo filme, de forma ambígua, para afirmar os sentidos da dor vividos por mãe e filha. Entre a mirada que condena os maus hábitos, o cigarro, a bebida, as festas hippies e a consciência de uma realidade de abandono, deterioração e escassez de recursos se desenvolve o conflito entre mãe e filha. Júlia deseja permanecer na casa na Patagônia, mas um incêndio a obriga a se deslocar, junto com Armonia, à
casa de sua irmã que vive na cidade, e é uma seguidora do status quo e avessa ao estilo alternativo. Seduzida pelos valores burgueses da tia, a criança chega a confrontar a mãe e escolhe bem as palavras para expor suas faltas e insuficiência.

Entre as tensas sequências que mostram as diferentes visões de mundo das irmãs, surge o mistério de um passado e uma desconstrução do caráter das personagens mulheres. Entre as misteriosas cartas que Julia lê às escondidas e a relação de mãe e filha que não se conectam, a trama caminha para mudanças e revelações. Julia anuncia sua gravidez e a necessidade de voltar à casa, na Patagônia, já restaurada dos danos causados pelo incêndio. De volta, a mãe conclui a gestação, seguida de uma depressão pós-parto de um natimorto, ou de um bebê que morreu após o parto, e novas ameaças surgem e desestruturam o núcleo familiar.

As estações e os elementos da natureza definem os pontos de virada da narrativa. No início, o fogo do incêndio provocou a mudança da família do campo para a cidade. Depois, o ar gelado que adentra a casa é motivo de briga que resulta na separação de Julia e Pedro. E o inverno demarca a chegada de um homem misterioso e o clima de suspense. Esse personagem chega e se apresenta como o pai biológico da menina. Fala em detalhes sobre sua solidão em viver longe da criança. Por meio dos diálogos, o espectador entende que as cartas rejeitadas ou lidas às escondidas eram remitidas por esse ex-namorado que, em sua revelação, deixou Armonia ainda mais triste e solitária.

Longe de Pablo e com a decepção de descoberta de suas origens, Armonia foge de casa e se isola na paisagem. Recolhida em seu universo imaginário, em sua crença de parentes extraterrestres, a menina recorre ao aparato tecnológico que a conecta a outra dimensão. A busca da mãe pela filha pauta o último quarto de tempo do filme ao passo em que ressignifica uma busca de si mesma ou da perda de uma parte sua. A ausência da menina e os longos planos de busca da mãe pontuam a angústia da mulher diante da dissolução da família. Pablo se retirou, Armonia está no meio da selva e resiste em retornar porque não suporta viver isolada com a mãe.

O estado psicológico de Julia é ressignificado pelo movimento de câmera. Os enquadramentos noturnos e a valorização dos sons de uma natureza selvagem potencializam o clima de tensão da mãe solitária que caminha entre trevas à procura da filha. Essas cenas complementam informações sobre a condição emocional da personagem ao passo em que afirmam os dilemas e paradoxos existenciais da mulher que vive em sua insuficiência na maternidade e no amor romântico.

Enquanto Julia desbrava a selva em busca da criança, Pablo retorna acompanhado dos vizinhos indígenas que entoam cantos como apelo ao divino para encontrarem a menina. Em uma encenação catártica, a súplica dos indígenas à liberação de uma realidade ameaçadora, potencializa a resistência de valores da ancestralidade e tem o efeito de reestruturar o núcleo familiar.

A importância do filme está no tratamento dado às relações entre mãe e filha, à vida em natureza e no resgate de tradições dos nativos da Patagônia. Também se destaca a condição de um pai biológico não corresponder à representação paterna para uma menina. Ao contrário de Pablo, que mesmo por não ser chamado de pai por Armonia, tem representatividade afetiva. A relação entre eles é de cumplicidade e as conversas se prolongam sem agressões. É por meio das conversas entre o pai não biológico e a filha que se adensam as críticas sobre a vida de isolamento junto à natureza. Atencioso, Pablo parte de exemplos simples para expor assuntos complexos para serem entendidos por uma criança: “Cuando ponés una manzana sana entre manzanas podridas, se pudre, y yo no quiero que nos pase eso”. Assim fala o pai à Armonia para privilegiar o estilo de vida alternativo. Explicações como essa são usadas para a conscientização dos valores humanistas de pais, que mesmo com as dificuldades para a organização de suas próprias vidas, acreditam que o melhor é se abster do sistema social e econômico normativo.

Diante desses argumentos, a trama evolui na condição ambígua de renegar e valorizar o estilo de vida alternativo e expõe a dificuldade de relações entre diferentes gerações. A desconexão entre pais e filhos, crianças ou adolescentes que buscam autonomia na organização cotidiana, já que lidam com adultos letárgicos, assim como as locações em ambientes selvagens, em certa medida, dialogam com o esquema narrativo dos filmes argentinos O Pântano (La Ciénaga) de Lucrecia Martel e Tigre, de Silvina Schnicer y Ulises Porra Guardiola. No entanto, o filme Eu Menina se evidencia por estar na categoria das autoficções. A diretora Natural Arpajou trabalha em torno de uma pesquisa pessoal e apresenta uma obra, em que se entrecruzam escritas de si, criação ficcional e reflexão crítica. Os planos finais conectam o espectador a sentimentos próprios da personagem menina e da diretora que encerra o filme com uma homenagem ao pai, o que reitera, por assim dizer, seu lugar de afirmação do passado difícil marcado pela relação conflituosa entre mãe e filha.

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