Asfixia; por Dirceu Antônio Scali Júnior

Asfixia é termo dicionarizado significando dificuldade de respirar, que pode ser causada por estrangulamento, afogamento, obstrução das vias aéreas superiores, mas também, em sentido figurado, apresenta a acepção de sujeição à tirania, opressão, privação da liberdade.

Tais significados perpassam toda a narrativa, atravessando, em diversas medidas, as histórias de cada personagem, bem como dando o matiz da história enredando as personagens nesses distintos sentidos e investindo-os das tonalidades, tanto em termos das cores, voltadas para o azul (predominante), branco, bem como as mais escuras, nos momentos em que as cenas se tornam densas, asfixiantes (tais como os pesadelos, ou as chuvas intensas, produzindo ´afogamentos´).

Façamos, pois, uma leitura a partir dos nomes das personagens, Alma (jovem albina, que acaba de sair da prisão e vai em busca da filha, Azul, garotinha também albina, que vive com o pai Bernie, rapaz violento, irascível, preconceituoso, misógino…que, por sua vez, mantém um relacionamento abusivo com Concha, moça com traços marcadamente dos nativos da região, que trabalha em uma espécie de quiósque onde se vendem medicamentos e é frequentado por Dom Clemente, hipocondríaco, que sofre com falta de ar, carregando um carrinho com um tubo de oxigênio.

É importante ressaltar como os nomes podem dar uma chave para se ler o filme, que se inicia com Alma saindo da prisão. Alma vem do grego anima que quer dizer sopro, respiração ou princípio vital, ou seja, é como se o princípio vital, ou a alma, se encontrasse aprisionado. Não é por acaso que mais adiante, no filme, o personagem Dom Clemente perde a respiração no instante em que entra em contato com Alma e fica fortemente tocado ao associar a imagem dela com um dos anjos, ou arcanjo, decaído, e cuja imagem, a qual ele encontra num hospital e posteriormente em uma figura em sua casa, apresenta este arcanjo olhando, ou cuidando, de um menino próximo a um pequeno riacho.

Clemente, entre outras coisas, tem por significado o piedoso, o bondoso, o benigno, o indulgente, tais características estão fortemente relacionadas com a personagem, que apresenta uma saúde frágil, caracterizada principalmente pela falta de ar, ou da anima, Alma, que ao surgir, em sua vida, é como se lhe desse o sopro vital necessário que pudesse salvá-lo, porém ele, ao final do filme, quando surge a possibilidade de se libertar (fugir com Alma e Azul, filha dessa) do que lhe deixa em estado de asfixia, prefere ficar, continuar preso a esse estado, preso às suas memórias, as quais evocam a figura do filho morto que ele não conseguiu salvar.

A falta de ar de Dom Clemente inicia-se no mesmo instante em que o filho se vai, se ausenta. A morte, ausência da anima, alma, ar, torna-se a presença desse filho que se foi, daí ele ficar preso à asfixia, sopro final do filho, abrir mão da asfixia significaria abrir mão da memória da passagem do filho.

Ao sair da cadeia, Alma procura retomar sua historia e sai em busca de da filha que ficou com o pai, que é o único personagem no enredo que tem nome estrangeiro, Bernie, ou seja o nome do estranho, poderíamos pensar, inclusive, do invasor, que induz, ludibria e leva Alma à prisão, aprisiona a alma, suprime o que é vital à manutenção da existência.

Após o encarceramento de Alma, Bernie seduz e acaba por se envolver com Concha, que, em espanhol, tem entre outros o significado de vagina, pode-se pensar tanto na mulher, como na terra conquistada de forma violenta, agressiva. Concha tem por maior desejo casar-se com Bernie, o estrangeiro, vê-se seduzida por esse que a usa para conseguir os medicamentos que esta vende (e pelos quais Alma já havia sido presa).

Há uma cena em que todo o preconceito de Bernie vem à tona quando Concha, ao provar um vestido branco de noiva, este, tratando-a de maneira rude (aliás, está é a maneira de ele agir com todos do local), pergunta à vendedora se não tem um bege, para diminuir o contraste, referindo-se à tonalidade da cor da pele da nativa. De certa maneira, Bernie é o invasor que violenta, usurpa, retira tudo e aprisiona, a alma e os corpos conquistados, e em uma cena mais ao final, ele, em um gesto de ruptura, atira o vestido à lama, em uma água de chuva empoçada que se associa à asfixia (como nas cenas em que a água surge nos pesadelos de afogamentos, de Alma, por exemplo).

As personagens, em sua quase totalidade sideram em torno dos remédios, ou usando-os, caso de Clemente, ou vendendo de forma lícita, Concha (porém esta já está furtando para o estrangeiro), ou ilícita, Bernie, remédios , cuja outra denominação é droga.
Bernie, de certa maneira, se apropria das vidas dessas mulheres, pela sedução e, posteriormente, pela violência e assim que consegue o que pretende abandona-as.

Dom Clemente, em sua clemência, não se liberta, seguindo Alma, prefere se asfixiar na ausência do filho, Concha, por sua vez, se asfixia no desejo de união com o estrangeiro, o estranho, que a maltrata, a avilta e a mantém, até o fim, sob o véu da ilusão, Alma se asfixia na ausência de Azul, que lhe é retirada por Bernie.

Alma, no instante em que sai da prisão, coloca um par de brincos azuis, em forma de um globo, como o planeta Terra (azul, quando visto de longe, em virtude da água), os quais ressurgirão no momento em que encontra a filha, esta com os cabelos presos por um prendedor também em forma de um globo azul.

A cor azul predomina na maioria das cenas, bem como no nome da filha, ao reencontrá-la, Alma dá-lhe de presente uma pequena caixa em que se encontram duas pombas brancas, símbolo da paz, sobre um fundo azul, e diz que são elas. De certa maneira, a liberdade efetiva ocorre apenas com o resgate da filha das mãos desse pai “estrangeiro” que tratava a menina também de forma rude, como às outras mulheres.

A cena final mostra as duas, como se vistas do céu, boiando, muito brancas, sobre as águas calmas do mar, essas não mais asfixiantes, como nos pesadelos da mãe, mas libertadoras, como as duas pombas brancas boiando no azul. Azul que é Terra, mas também água.

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