A Fronteira; por Vanderlei Henrique Mastropaulo

Em um dia nublado, um carro corta uma estrada deserta. Dentro dele, três homens: dois falantes, um calado e algemado. Os dois, entusiasmados, arriscam palpites sobre o futuro dos chilenos, apostando em quem souber inglês ou use computadores. Eles pedem a opinião do tímido homem, a quem chamam, com certo desprezo, de “professor”. Este permanece alheio à discussão e logo se descobre a razão: ele está sob custódia e a viagem tem como destino o sul do Chile, a muitos quilômetros de sua residência na capital Santiago. Os dois acompanhantes (membros da polícia política da ditadura de Pinochet) insistem que o homem algemado não é um “prisioneiro”, mas um “relegado”, eufemismo cínico para designar os exilados dentro do próprio país, e que, de todo modo, permanecem como presos políticos. Assim se inicia A fronteira (1991), longa-metragem de estreia de Ricardo Larraín (1957-2016), premiado no Festival de Berlim e com o Goya de melhor filme estrangeiro, trazendo visibilidade ao outrora combalido cinema chileno, após anos de autoritarismo e censura.

Larraín se formou pela Escola de Artes da Universidade Católica do Chile, no fim dos anos 1970, e trabalhava em publicidade, uma vez que a produção de cinema estava praticamente paralisada. Ele também dirigiu documentários e filmes para a televisão. Em 1988, participou da campanha do No, realizada para o plebiscito que votou pelo fim da permanência de Pinochet no poder (tematizada em No (2012), de Pablo Larraín). Em 1989, o roteiro de A fronteira (que Ricardo Larraín escreveu com o roteirista argentino Jorge Goldenberg) foi premiado no Festival de La Habana. Teve início a busca por financiamento para esta coprodução entre Chile e Espanha.

O enredo gira em torno de Ramiro Orellana (Patricio Contreras), professor de matemática condenado como “relegado” por ter assinado uma petição pública que denunciava a prisão de um colega de profissão. Por esta razão, ele é enviado ao sul do país e recebido pela polícia local sob a pecha de “terrorista”. Sem ter onde morar, Ramiro é acolhido pelo padre Patricio (Héctor Noguera). Antes, passa por constrangimentos causados pelo delegado (Alonso Venegas), crente de que as longínquas autoridades em Santiago estão, de fato, preocupadas com seu zelo no cumprimento das ordens e no controle rigoroso da rotina de Ramiro, obrigado a assinar diariamente um documento que comprova sua permanência na região.

Aos poucos, o “relegado” se aproxima dos habitantes locais, como a senhora mapuche que conhece segredos de remédios naturais, a espanhola Maité (Gloria Laso, atriz que se exilou, em 1974, após ser libertada da prisão) e um mergulhador excêntrico (Aldo Bernales). Maité chegou criança ao Chile. Seus pais vieram exilados após a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) e ela se compadece com a situação de Ramiro, afinal, reconhece nele ecos de sua própria trajetória. Don Ignacio (Patricio Bunster), pai de Maité, está senil e segue sonhando com a Espanha deixada para trás. E o mergulhador está obcecado em entender o maremoto que, anos atrás, provocou grande devastação, levando pessoas que permanecem desaparecidas (uma analogia direta à cruel realidade da ditadura, e que infelizmente permanece).

O enredo é construído com inteligência e delicadeza, de forma a acompanhar a progressiva adaptação de Ramiro à sua condição não-declarada de preso político. Para isso, criam-se efeitos com as belas paisagens locais, ressaltadas pela fotografia a cargo do veterano Héctor Ríos, câmera do clássico El chacal de Nahueltoro (1969), de Miguel Littín, e de documentários do período da Unidade Popular. Ríos partiu para o exílio, em 1973. Trabalhou em El enemigo principal (1974), que o boliviano Jorge Sanjinés filmou no Peru, e, depois viveu muitos anos na Venezuela.

Ramiro resume o dilema de muitos “relegados”. A história se passa em 1985, momento em que o Chile já testemunha protestos contra a ditadura, cruelmente reprimidos, e a comunidade internacional condena veementemente a permanência do regime militar e as arbitrariedades cometidas desde o golpe de estado que derrubou o presidente eleito Salvador Allende. Para reforçar a verossimilhança, há um rápido insert da revista Solidaridad. A capa é fictícia, mas evoca a publicação oficial da Vicaría de la Solidaridad, organismo criado pela Igreja Católica no Chile para prestar assistência às vítimas da ditadura. Este corajoso trabalho foi tema do documentário En nombre de Dios (1987), de Patricio Guzmán, que, na época da filmagem, teve parte da equipe presa por agentes da repressão.

Um olhar atento sobre A fronteira desperta a nítida sensação de que sociedades que enxergam seus mestres como inimigos estarão sempre propensas a sofrer catástrofes (aqui, um maremoto, metáfora da ditadura). O tratamento dado a Ramiro, um democrata de princípios, traz um triste senso de realidade para o momento atual do Brasil, no qual professores e instituições de ensino (sobretudo universidades) são vistos com desdém, descaso e desconfiança por parte da opinião pública e até mesmo por autoridades. Ao que parece, as lições do passado sombrio e obscurantista não foram absorvidas como deveriam. E voltamos a escutar no Brasil (e em toda a América Latina) o latido surdo de cães hidrofóbicos que acreditávamos superados.

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