Y de Pronto el Amanecer (2018), de Silvio Caiozzi. por Dirceu Scali Junior

O filme se inicia com o retorno do personagem Pancho (Julio Jung) ao seu povoado. No aeroporto, ele fala ao celular com sua esposa “Calma, estou indo para a Patagônia e não para o fim do mundo” e, ao chegar ao seu destino, comenta com seu amigo Miguel (…) que está escrevendo “As crônicas do fim do mundo”, é um filme que tem como uma das temáticas o viver e o morrer, ou seja, fala sobre retomadas de memórias e reminiscências, bem como do golpe no Chile, a situação dos Mapuches, a perda e ao mesmo tempo a tentativa de resgate do próprio idioma, tanto como estilo quanto como linguagem como afirmação identitária, os Mapuches falam o mapudungun, cujo significado é ‘som da terra’, tantas vezes Pancho diz que é preciso ouvir os sons da terra.

As memórias são recortadas por um certo realismo-mágico, a fotografia nos lança numa espécie de irrealidade, de fantasia. Mostra-nos um personagem que tem por mote um discurso entre o tempo, a vida e a morte e a passagem. Tal discurso vemos desde o início de sua narrativa, quando conta seu nascimento como acontecendo no mesmo momento da morte dos pais, o pai afogado e a mãe durante o parto. 

Pancho retorna para seu povoado, Chiloe, e cada local pelo qual caminha lhe trás momentos da sua história os quais transforma em narrativa ficcional que conta como “Crônicas (do início ou) do fim do mundo”, tais narrativas intercalam três momentos, ele criança, jovem e idoso. Fala-nos dessa passagem do tempo, desse nascer e morrer que se mesclam e acabam por se confundir. Seu pai é um marceneiro que confecciona caixões. Ele próprio “nasce como escritor” num discurso que faz em um funeral. 

O funeral de seu “Olegário, o homem que vence o calendário”, está completando cem anos e quando vence esse calendário, quando vence o tempo, é pego pelo próprio tempo, morre. Nesse aniversário-morte, Olegário convida ” jovens e velhos, ricos e pobres, espertos e tolos, oportunistas e puritanos a dançar sob o mesmo ritmo”, que não é outro que a passagem do tempo para todos.

Ironicamente seu corpo é preparado por um rapaz tido como louco que trata o corpo como um nada, pintando-o, arrancando-lhe os cabelos e lhe dá tapas, como se fosse um boneco, é o louco brincando com o tempo, com o sr do tempo.

É no velório de seu Olegario, que surge o Poeta da morte, Pancho, o escritor. A partir desse momento Pancho recebe um emprego, de seu tio, que se torna uma espécie de mecenas que o financiará para que este escreva, com exclusividade para ele, e pretende transformá-lo em um grande escritor, um grande poeta. 

Desde o velório de Olegário, Pancho passa a fazer cruzes, com restos de madeira da marcenaria de seu pai e escreve poemas para cada morto, ele poetiza a morte, ao se entrar no cemitério todas as cruzes e lápides têm poemas seus compondo algo como uma obra.

O poeta da morte, como é conhecido, é apaixonado por Rosita (Müller) (uma rosa é uma rosa é uma rosa é…), porém esta tem como pretendente um militar. Em cena belíssima, Rosita e o poeta, tempo depois do enterro, vão à casa de Pancho e sobem para seu quarto no sótão, e ao fechar o trinco, ele diz “os outros estão fechados lá fora e nós livres aqui dentro” e segue-se uma linda narrativa da relação sexual dos dois. 

Esta triangulação amorosa entre Pancho, descendente mapuche, a moça com traços ocidentais e um militar, trás os ingredientes que compõem num certo sentido o Golpe militar de ’73, no Chile, podemos ver em uma das cenas uma pichação com o nome de Alliende. O exército trás consigo o desespero, a morte, o choro, tentando matar, suprimir tudo o que carrega poesia. Pancho é obrigado a fugir, sob tiros e perseguição, para a capital, e lá faz toda a sua história, começa a escrever para periódicos, revistas, notícias sem importância (farândolas) utilizando-se inicialmente de pseudônimos, forma de se manter oculto, e tempos depois passa a assinar como ele próprio, faz sucesso, ganha dinheiro e as notícias chegam a seu vilarejo, muitos imaginavam que ele havia morrido, até esse momento quando resolve voltar, já velho, como estão velhas as casas, as pessoas e encontra seu velho amigo Luciano (Berrios), que de certa maneira foi quem lhe instilou a verve de escritor ao contar-lhe histórias, ao despertar o desejo pelas narrativas. Luciano é o dono do Bordel da cidade é um ator, com rosto pintado de branco, um ator e menino, como ele mesmo se define.

Luciano lê Homero, A Odisseia, para Pancho, desde criança, e quando desse retorno pergunta se Pancho havia lido a Odisseia, e esse responde que não que preferia ficar com a leitura de Luciano.

Em uma dessas leituras, no bordel, ao narrar o momento em que as sereias cantam a fim de enfeitiçar a Ulisses e seus marinheiros, este amarra a todos nos mastros a fim de que não se atirem nas águas, envolvidos pelo canto das sereias. Luciano fecha o livro e bate na mesa com força, o que assusta a todos e conta como seria se ele fosse Ulisses, ele cantaria mais alto e de uma forma muito bela e faria com que todos cantassem tão alto e tão forte que as sereias se encantariam e juntos todos cantariam em uníssono. Isso mostra a enorme generosidade deste personagem, que repito é quem instila em Pancho o desejo pelas narrativas. Pancho diz que encontrou sua forma ou estilo ao escrever os poemas nas lápides, nas cruzes, ele é o poeta da morte, uma forma que dialoga com a morte, como Bergman, que coloca a personagem para jogar xadrez com a morte, Pancho também joga esse jogo de maneira extremamente poética. 

A magia, que se inicia com a Bruxa, sem rosto, continua com o Elfo, que não o é, mas como diz a própria narrativa Pancho viveu aí a magia em toda a sua potência. Todas essas histórias retornam como reminiscências como memórias. Talvez Pancho escreva nas lápides por não ter conseguido decifrar os dizeres em grego na lápide de seu pai, ou seja, como no oráculo “Decifra-me ou te devoro”. Ele foi devorado pelas palavras, palavras essas de um poeta da morte.

Mais para o final, em uma conversa com seu amigo Miguel, este conta o motivo por ele ter sido perseguido pelos militares. Em um momento em que deveria dizer à Rosita, agora casada com o militar, sobre o plano de fuga arquitetado por Pancho, é pressionado pelo milico e entrega o amigo, que é perseguido e tem de fugir.  A traição cobrou um preço alto, perdeu a namorada, os amigos se afastaram e teve de conviver com a culpa por achar que Pancho estava morto. 

Os dois bebem muito e saem do bar onde estão, encaminham-se para o cemitério já tarde da noite, lá chegando brindam a Luciano, morto, porém neste momento, Miguel lhe pergunta, você que é o poeta da morte não vai escrever nada para nosso Luciano, ao que Pancho responde: “se falas comigo nós dois vivemos, se todos cantarmos as sereis virão”. Miguel encaminha-se para o carro, e pouco depois Pancho vai até este que dorme e, ao olhar o nascer do sol, diz que para finalizar a narrativa trás a personagem que aparece no começo da história, a bruxa, a mulher sem rosto. 

Essa bruxa é uma índia mapuche que lhe canta uma canção em seu idioma e quando de seu encontro com ela, medusa que não pode ser vista, e que lhe pergunta, se sabe por que se chama Pancho? Ele diz que sim e conta a história do grego, cujo pai havia dado este nome por querer homenagear um herói latino-americano Pancho Villa, e se conhece o significado do sobrenome de mãe Kurakewun, ao que ele responde, Linguagem forte como a pedra, isso nos remete aos poemas nas lápides, ou da morte. 

O encontro com essa mulher sem rosto nos leva a pensar que é a própria mãe dele, que jamais viu por esta ter morrido durante o parto. Ele finaliza seu romance com essa personagem, dizendo: “Falta-me apenas escrever para ti, senhora sem rosto. Sei que se passaram muitos anos, mas talvez em um amanhecer como esse, algum dia você terá minha novela entre suas mãos e lerá o que escrevo agora, assim abro o diálogo porque aquele menino que te espiava na distância, tornou-se mais voraz que nunca”… E súbito, nasce o sol.

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