Urso Polar (2017), de Marcelo Tobar. por Thiago Soares Ribeiro

Por vezes guardamos percepções, sentimentos, rancores que, como fotos de infância que são escondidas e esquecidas entre objetos antigos num canto qualquer em meio ao turbilhão contínuo de novas experiências, desaparecem de nossa atual realidade, como se superadas revivessem apenas ao serem arrancadas de seu esconderijo, fazendo transbordar o que já estava morto. A verdade é que nem sempre o que está fora dos olhos saturados do agora está esquecido, morto. Agarramo-nos às recordações ao mesmo tempo em que tentamos escapar delas, de suas consequências, suas marcas, às vezes profundas. Ainda assim quando confrontadas no aqui e agora, o não superado, as marcas profundas não são expostas sem novas consequências.

As recordações de infância estão impregnadas em toda a película do mexicano Marcelo Tobar. Em Oso Polar, Heriberto (interpretado por Humberto Busto) está a caminho de uma reunião com a velha turma da escola primária e se encontra com Trujillo e Flor, que têm o mesmo destino e irão juntos no velho carro ano 82, herança da mãe de Heriberto e também protagonista nas lembranças de infância do filho. Desenrolando-se como um filme de estrada ao longo do qual se descortinam as memórias dos três acerca da época que compartilharam, o esforço do protagonista para quebrar o gelo ora é desfeito pelo descaso dos colegas, ora pelos percalços que surgem durante a viagem. Ambos são estranhos a Heriberto, e ele tenta reconstruir o passado não muito diferente com novas e melhores lembranças dando-se conta aos poucos de que a relação de abuso dos antigos colegas para com ele permanece a mesma ainda que ele a suporte e o tempo o tenha feito relevar a parte ruim. Marcas antigas são expostas.

Segundo o diretor e roteirista a ideia do filme surgiu justamente de uma reunião de sua antiga turma de escola. Entre as trocas de percepções do passado, por vezes destoantes, Tobar não só reencenou velhas lembranças como viu surgir novamente toda a dinâmica da relação com os colegas como era na infância: “Fue muy dramático ver cómo las mismas dinámicas que teníamos de niños empezaron a replicarse y gente de casi 40 años se sintió abusada e incómoda. Yo mismo me sentí incómodo con gente que empezó a tratarme con cierta displicencia.” A partir da ideia inicial a película se desenrola abrindo o leque cruel de possibilidades de subjugar e ser subjugado. Não só a relação do abusador e do que sofre o bullying mas de toda uma cultura de violência que é extremamente arraigada em nós sul americanos, mas não só, moldada pelo colonialismo e suas formas silenciosas de apartheid.

Em seu ensaio México: el racismo que no se nombra, Francesca Gargallo inicia assim:

“Nadie en México admite ser racista, así como nadie quiere verse más oscuro de lo que un canon no dicho de aceptación social exige. Según el Consejo Nacional para prevenir la Discriminación (Conapred), 40% de los mexicanos está dispuesto a organizarse con otras personas para solicitar que no se establezca cerca de su comunidad un grupo de indígenas. Y es lógico, pues 43% opina que los indígenas tendrán siempre una limitación social por sus características raciales.” É-nos peculiar, como brasileiros, uma cultura semelhante de  exclusão, levando em conta o grande mito da democracia racial em que estamos imersos. A situação no México não nos é estranha. Ao longo da colonização o subjugar dos povos originários e dos africanos escravizados foi se naturalizando enquanto que a mestiçagem tratava de apagar o passado dos que aqui nasciam, em muitos casos frutos da violência também sexual dos colonizadores. Assim, ainda que os mestiços se vejam inseridos, estão sempre um degrau abaixo daqueles que são vistos como brancos ou de origem portuguesa, espanhola, europeia de qualquer tipo, sejam distantes ou não o parentesco importando certamente sua cor, classe social, como se vestem, sua origem. Nos diz sobre a colonização mexicana Ulises Martínez Coria: “Los españoles eran divididos en dos clases los criollos y los peninsulares, la diferencia que había entre uno y otro era simplemente el lugar de nacimiento. El que nacía en España era considerado como peninsular, precisamente eran estos quienes ocupaban los puestos de mas alto rango, y le seguían los criollos quienes eran españoles nacidos en América o en la nueva España (antes México) los criollos ocupaba buenos puestos en relación a los indígenas y mestizos pero inferiores comparados con los peninsulares.” Somos todos criollos tentando ocupar melhores lugares como os peninsulares, jogando um jogo que não podemos ganhar enquanto subjugamos os que enxergamos como estando abaixo de tais hierarquias criadas com único fim de exploração do lugar do outro. Francesca Gargallo continua em seu ensaio: “La ideología oficial del mestizaje transforma a la diversidad en invisible, niega el derecho al disenso y permite, al mismo tiempo, la exclusión de todos aquellos que quedan fuera de la norma del mestizo. De hecho, aunque todos seamos mestizos, a los más blancos les va mejor.”

Orso Polar, ao encriptar esse racismo invisibilizado, o apresenta para nós em doses cotidianas e dissimuladas, por vezes escancaradas no comportamento de Flor (Verónica Toussaint) que é capaz do desprezo absoluto até a confraternização mais fraternal quanto possível com os recém conhecidos suburbanos ou com a estimada babá de seus filhos, até o bullyng despretensioso e bonachão de Trujillo (Cristian Magaloni) para com o colega homossexual e de pele mais escura. Certo é que todos participamos desse jogo de subjugar e ser subjugado. O que nos diferencia do outro, o que nos exclui do mundo do outro, o que nos é tirado e o que nos é permitido arrancar do outro sem perder nossa própria humanidade? 

REFERÊNCIAS

Ganadores del 15° FICM: entrevista a Marcelo Tobar
https://moreliafilmfest.com/marcelo-tobar-oso-polar-entrevista-ganadores-del-15-ficm/

Racismo en México. Ulises Martínez Coria. 2008. Disponível em: https://www.monografias.com/trabajos65/racismo-mexico/racismo-mexico.shtml

México: el racismo que no se nombra. Francesca Gargallo. 2005. Disponível em:
http://www.jornada.com.mx/2005/11/19/mas-gargallo.html

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