Tunga: O Esquecimento das Paixões (2017), de Miguel de Almeida. por Sérgio César Júnior

Quando tentamos definir uma característica a um artista visual brasileiro como o Tunga (1952-2016), arriscamos a adjetiva-lo como um criador multifacetado. Esse tipo de rotulo não diz respeito apenas a maneira como o artista desenvolve suas técnicas e utiliza seus materiais, nem mesmo de sua versatilidade de transitar em diversos gêneros artísticos, como também, na sua habilidade de ser um provocador de público. Deduzimos que ninguém permanece indiferente depois que visita uma de suas exposições. Desde uma pessoa comum que emite uma opinião repugnante e ácida desaprovando uma de suas obras, até a de um crítico, ou historiador da arte, ou algum visitante sensível que reconhece nas suas obras os pontos de originalidade de sua poética visceral. 

No filme Tunga: o esquecimento das paixões (2017) de Miguel de Almeida percebemos que a intensão do seu realizador é a de desenvolver uma estrutura documental que esteja de acordo com o pensamento de seu protagonista. O cineasta explora na linguagem fílmica efeitos estéticos de imagens e sons semelhantes aos de vídeos performances, ou vídeos instalações presentes nas exposições de museus e galerias. O texto base do filme é de autoria do Tunga com alguns trechos interpretados em voz-over pelo próprio artista e outros pela cantora e compositora Marina Lima. Também há em voz-over e voz-off declarações e comentários de outras pessoas que conviveram com o artista, como os também artistas visuais Cildo Meirelles e Bernardo Paz. O cineasta conduz a narrativa audiovisual a qual se funde com a linguagem da arte contemporânea, assim rompendo com a estrutura convencional e linear de se realizar um filme documentário. Priorizando imagens de efeitos instantâneos ou da duração de uma “luz”, conceito do artista.

Para Tunga, a “luz” é o ponto de partida para o fazer e o expor de uma obra. Essa “luz” não é necessariamente um efeito físico de calor e iluminação. Retoricamente o artista a interpreta como a definição de alguma coisa, ideia, percepção do instante, filtro espectral, fragilidade da vida e até a duração efêmera de uma memória. Para Tunga esse fenômeno luminoso pode parecer simples e banal ao olhar comum, a exemplo da chama de um isqueiro acionado pelo próprio artista no filme. No entanto ao inserir uma encenação luminosa numa performance artística entre contornos e movimentos, uma das intenções do artista é acender a pira que está apagada na mente do público e lançar um clarear na busca por novas apropriações ou punctos. Nos trabalhos do artista nada é natural, nem naturalizado, nem uma obra sua surge de forma totalmente espontânea. A matéria percebida pelo artista não é primária e nem bruta. O material utilizado no seu ateliê são objetos artesanais, produtos industrializados e pedras lapidadas que serão transformados em monstruosos ensaios visuais. O artista reinventa as formas dos objetos dando um novo sentido à sua própria noção de ambiente de convivência, assim devolvendo à sociedade contemporânea uma reflexão sobre as consequências de uma vida tecnológica, dinâmica e insensata.  Tunga materializa em formato de instalações o inconsciente humano e suas performances absurdas representam os nossos íntimos e obscuros desejos.

Na abertura do filme, os planos iniciais simulam uma projeção de slides com aparições relâmpagas de fotogramas com imagens de obras tridimensionais, partes de corpos nus de atores em performances. Fotos de parte das pernas de atrizes performáticas em Xifópagas (“gêmeas capilares”), esculturas em formatos de crânios, planos detalhes sob os fêmures, tíbias, ossos dos pés, caixas torácicas, esculturas de cabeças emaranhadas nos fios. O som ao fundo é da canção “Aquarela do Brasil”, de Ari Barroso em versão rock misturada a um barulho de motor de broca, proveniente de uma de suas ferramentas utilizadas em seu ateliê. A versão musical da canção de Ari Barroso somada ao ruído da ferramenta elétrica na abertura do filme são informações que denunciam o espírito contemporâneo e inquieto do artista, que não se conforma com a versão original das coisas e apresenta outra forma de perceber o convencional.

Após a abertura, as primeiras imagens estão em plano conjunto e foram registradas no Musée du Louvre. Em movimento de traveling vertical em ângulo descompensado, a câmera na parte interna do elevador panorâmico acompanha a descida até o piso inferior. É possível visualizarmos pela vidraça da cabine a escada, os visitantes e um dos monstruosos tridimensionais de Tunga. Já no piso inferior e fora do elevador, a câmera enquadra em plano geral e contra-plongée a parte interna da pirâmide de vidro, onde localizamos as escadas de acesso ao pavilhão de exposição. O plano seguinte que faz o contra campo do lado de fora da instituição, nos traz a visão em plongée da escultura vista através do vidro da pirâmide. Para encerrar os planos no museu francês, o realizador optou pelas imagens técnicas da fusão de uma manchete de jornal sobre a sua temporada na Europa, em letras garrafais gigantescas as quais mal cabem no espaço da tela. O título da matéria de jornal se sobrepõe a um retrato em branco e preto, do artista ainda jovem usando madeixas longas, dorso nu, segurando em cada uma das mãos as extremidades de uma curta corda entrelaçada. 

Na sequência surge outra imagem fotográfica de algum periódico brasileiro enquadrando o rosto do artista em sua fase de meia idade usando cabelos curtos com mexas grisalhas. Ao fundo em vermelho está uma de suas obras não identificada e na frente a palavra destacada “inconsciente”. Semelhante as telas surrealistas de René Magritte vemos no plano seguinte, um retrato em branco e preto muito próximo de um homem segurando um pano branco encobrindo o rosto. Outra imagem fixa que surge a seguir é a de um detalhe em cores de um fêmur ostentado por uma das suas mãos, com uma sombra densa projetada na parede, efeito ilusório expressivo do flash fotográfico. No plano posterior médio vemos a imagem fixa de Tunga, na frente de um ventilador parado com braços em posição de redenção sustentando dois fêmures, um em cada mão. Nessa imagem fotográfica posando com os ossos, o artista é retratado como alguém que não tem medo de lhe dar com o contraditório, encarando os efeitos exagerados de luz e sombra, posando com os símbolos de vida e morte, retomando o sentido profano daquilo que é visto como sagrado e transformando esses elementos trágicos em objetos de comicidade. O artista, assim como qualquer pessoa que vive uma vida comum em nossa sociedade, também é um ser de incoerências e de sentimentos instáveis.   

Artista de fôlego e densa motivação. No filme de Miguel de Almeida, Tunga é representado nas imagens como um homem de estilo incansável, elegante e irreverente. Dedicava-se o tempo necessário para projetar suas obras e coreografias pensando uma nova exposição, a qual, além de trazer uma leitura original da vida urbana, também visava de forma não convencional, extravagante e muitas vezes sarcástica provocar o senso de humor do público. Sacar o discurso irônico numa de suas obras era algo que dependia mais da interpretação do próprio espectador, do que das intenções do artista. Apesar de suas expectativas de criar situações cômicas, Tunga parecia ter consciência de que suas obras ganhariam autonomia de movimento. De suas próprias palavras, o artista sabia que no período de sua posteridade uma obra sua seria a representante de sua “luz” perene, ou seja, cumprir seu papel de refletir o ser humano. No seu ponto de vista, a sua missão artística era dar sentido a arte e a vida contemporâneas.

Se definir o artista não é uma tarefa fácil, o público espectador de Tunga, não pode esperar que esse filme traga definições concretas sobre o seu estilo de criação, nem de suas subjetividades. Nem tão pouco se reduz a uma mera biografia filmada de uma figura pública. Contudo vamos encontrar mais do que uma representação de uma personalidade artística inquieta, ou seja, veremos parte do acervo monstruoso que foi resultado de seus impulsos criativos e contínuos. Se para o artista a “luz” é o ponto de partida para iniciarmos uma leitura do mundo, assim expandirmos nosso olhar em diversas formas e intensidades dando novo sentido as coisas convencionais, da mesma forma, o realizador do documentário compartilha com público essa chama legada pelo artista. 

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