Tigre (2017), de Silvina Schnicer e Ulises Porra Guardiola. por Daniela Gillone

O Delta do Río Paraná em Tigre, município que pertence a Grande Buenos Aires, conhecido como Delta tigrense, compõe o cenário de desenvolvimento do drama que envolve uma mulher que tem propriedade nessa localidade e resiste à especulação imobiliária. A perspectiva crítica do filme se pauta no reconhecimento de um passado de ostentação da burguesia bonaerense que construiu casas nessa região. 

Da glamorização do lugar que um dia foi exclusivo de uma classe endinheirada, passando por sua transformação e ocupações por outras comunidades mais modestas, as imagens mostram o que resta de velhas mansões e o que resistiu aos descuidos dos proprietários originais. O projeto interrompido de uma “Veneza Americana” resultou em descuidados casarões à margem do Río. Essa condição é posta entre enquadramentos que sugerem que a casa onde se passa parte da trama poderá se afundar em baixas águas turvas. 

Rina (Marilú Marini), a proprietária, com cerca de 70 anos, acompanhada de Elena (María Ucedo), que aparenta ter 50 anos, regressa, depois de muito tempo de ausência, à casa que deve ser ocupada antes de uma possível usurpação. Entre o deixar para trás o status do paraíso restrito e a consciência de uma realidade de abandono, deterioração e ameaça de usurpação imobiliária se desenvolve o conflito entre mãe e filho. Rina deseja permanecer com a casa na ilha do Delta, e seu filho, chega à propriedade com o intuito de persuadi-la à venda. Dessa tensão entre os dois, surge a elaboração do mistério, e de uma desconstrução do caráter das personagens. Entre o dito e o apenas sugerido, e um mostrar sem revelar, a trama caminha ao inevitável acerto de contas entre mãe e filho. A ameaça de tudo cair abaixo por águas turvas se estende, no intuito metafórico, à prognosticada destruição do idílio familiar.

O filme não chega a apresentar em detalhes como se daria o projeto imobiliário que ameaça Rina a desocupar a casa. Atento aos diálogos, o espectador entende que essa personagem regressa à casa não apenas por nostalgia. Também fica esclarecida a condição de ocupar a casa e de mantê-la povoada com a presença de outras personagens, adolescentes e crianças, que transitam pelos cômodos. Compõe-se, então diferentes núcleos de personagens, além das relações entre as mulheres adultas e mães e filhos. Entre adolescentes despontam-se situações sensuais e sexuais. Já o núcleo das crianças se desenvolve sob a tensão da natureza ameaçadora.

Uma subtrama se anuncia no primeiro plano. Uma pré-adolescente fecha os olhos e dorme no meio da paisagem. Tão logo, um menino, um pouco mais jovem, a observa à distância. Supõe-se, então, que essa menina fugiu para o meio da selva com um menino e resiste em retornar. Em outros planos, a busca do menino, acompanhado de um amigo, para resgatá-la é tensionada pelo movimento de câmera, enquadramentos e sons de uma natureza selvagem que suscitam o susto.

Após essas cenas, um plano direciona o espectador geograficamente, ao mesmo tempo em que apresenta o grupo das mulheres, Rina e Helena, no barco, chegando à ilha do Delta. Enquanto se desenvolve a relação entre essas duas mulheres, a imagem da menina e sua interação com meninos aparece ao longo do filme, inclusive em planos que remetem imagens-sonho. Essas cenas, realistas e oníricas, se sobrepõem e complementam informações sobre a menina, ao passo em que definem camadas para o filme se desenvolver em seu tom experimental.

No início, as cenas mais realistas da menina ficam, aparentemente, desconexas, mas criam tensão e intensidade para o desenvolvimento do ambiente sensorial. As imagens da menina na natureza selvagem se conectam aos outros núcleos pelos sentidos. Planos da natureza, closes em teias de aranha e em bichos estranhos, acompanhados de ruídos, em som hiper-realista, definem os pontos de contato das tramas. O perigo e tensão parecem não afetar as mulheres de diferentes idades, o que enfatiza suas condições de autônomas. No caso da menina, os meninos querem tirá-la das entranhas da selva. Mas sua imagem é de uma espécie de dominadora do mundo selvagem. 

“No sabés los bichos que aparecen. Culebras, bichos extraños”, frases como essa mencionada parecem pouco importar as mulheres no filme, que estão decididas aos enfrentamentos na casa e na natureza. Da resistência em ficar na casa à liberação de uma realidade ameaçadora, mulheres se unem em um projeto surpreendente. Rina e Elena, e as duas adolescentes em uma encenação se entregam à catarse. A resistência em tom de mise en scène confere a afirmação de transgredir, quebrar tudo, e assim definir o lugar das mulheres nas artes.

O mérito do filme está em sua valorização das personagens mulheres, no tratamento dado às relações libertárias das crianças e dos adolescentes, nos conflitos entre mãe e filho e na crítica dirigida à especulação imobiliária. Também é relevante a crítica a uma geração que ostentou, decaiu e descuidou de suas propriedades. Além desses argumentos, se desenvolve um ambiente para as tramas evoluírem. Vale mencionar que muito do aspecto formal e também muitas das estratégias narrativas (as locações, o ambiente selvagem com som hiper-realista, a propriedade descuidada pelos mais velhos, os grupos de personagens de diferentes gerações e as relações sensuais dos mais jovens) se desenvolvem com evidentes referências do filme O Pântano (La Ciénaga) de Lucrecia Martel. Por fim, também vale reconhecer que o filme Tigre progride ao propor elipses e ousar em cenas que conseguem conectar o espectador à evolução de diferentes acontecimentos. O arranjo final é de resistência e de afirmação das mulheres de todas as idades.

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