Tempo de Ir, Tempo de Voltar (2018), de Pedro Nishi. por Dirceu Scali Junior

O título do curta já nos conduz a alguns questionamentos que poderíamos realizar acerca da história a qual iremos nos deparar. De que tempo se trata? Tempo como passagem, duração, cronológico, psíquico, da afetividade, enfim, que tempo nos espera no tempo que teremos na fruição da história narrada e, por outro lado, em que o tempo narrado pode nos afetar, nos tocar, como espectadores e seres temporais.

A abertura nos aponta para um tempo de supressões, de vazios, de faltas. Iniciando-se pelas figuras suprimidas de fotos, indicando lacunas que, em certo sentido, não deixam de ser constitutivas das histórias das personagens que permanecem, lacunas essas preenchidas pelas dores, sentimentos e desejos suspensos, presos entre o ir e o voltar.

Ir e voltar estão mediados por pontes, pontilhões, pelos quais, por exemplo, a irmã circula num ir e vir, casa e trabalho, vida interna e externa, dia e noite, dentro e fora. Este ir e vir não remetem a movimentos interiores, os personagens parecem presos num tempo, que súbito se instaura desde a morte do irmão por suicídio e fica suspenso na pergunta do irmão mais novo à irmã: “Por que o Edu se matou?”. Pergunta essa não respondida, porque efetivamente sem respostas possíveis para o entendimento de quem fica a tentar compreender a falta de quem se foi.

O irmão que se matou se presentifica em cada gesto ou atitudes dos vivos, corporifica-se nessa supressão do tempo e sustenta mesmo um tempo sem tempo, como quando põe água nos copos dos vivos, e quando vai colocar para si a água não cai no copo/corpo como a existência que se esparrama sem contenção, sem pele, espalha-se num não ser, como a água na toalha da mesa. A existência perdida ou inexistência não é sorvida pela irmã, que de certa maneira retém em si essa passagem que não passa, esse fluido vital, não heraclitiano já que permanece o mesmo, o irmão mais novo tampouco ingere o líquido ofertado, como se não aceitasse, talvez por não compreender tal passagem.

A casa se constitui com excesso de coisas que se misturam, desordenadamente, nada tem lugar, tudo busca lugar, porém ocupar espaço no tempo não garante a mobilidade deste espaço de retenção, espaço em que se produz a permanência, onde as janelas estão vedadas por jornais que perdem sua função de circular as informações, e de forma reversa retêm o movimento e produzem a ruptura com o exterior, o que está anunciado dentro não pode ser atravessado pelo que vem de fora. A tentativa do irmão mais novo de estabelecer essa troca é imediata e violentamente rechaçada pela irmã.

Um paralelismo entre duas cenas, a primeira em que o irmão morto se encontra imerso na banheira, enquanto a irmã escova os dentes, e uma segunda em que o irmão mais novo se deita nessa mesma banheira e ali dorme, aponta para uma tendência desse segundo a seguir os passos do primeiro, o que poderia ser corroborado quando, no início da narrativa, se dá o acidente de automóvel e, no decorrer da história, prevalece a ambiguidade se tal foi proposital ou não.

“Por que o Edu se matou?” continua em suspenso, e por uma abertura de uma das portas de vidro o irmão se atira. Em uma das cenas finais, ele dança, numa das pontes, a sua própria queda, cujos movimentos em que as mãos parecem abrir e fechar algo, e outros nos quais temos a impressão de que a queda é atuada nesses gestos de butô e finaliza com ele caído, morto, ao chão.

Essa “segunda morte” simboliza a libertação que viabiliza o tempo do voltar, os jornais podem ser retirados e as luzes, bem como as notícias, podem novamente circular, o fora e o dentro têm permissões para realizar seus intercâmbios, o tempo não precisa mais ser retido, aprisionado, pode fluir, permitindo aos que ficaram voltar ao movimento de suas vidas. Agora os tempos, tanto internos quanto externos, podem ir e voltar, e estarem prenhes de movimentos e não mais de imobilidades.

Em síntese, o curta traz uma temática extremamente atual que é a questão do suicídio e como esses gestos súbitos produzem traumas, bem como a dificuldade de elaboração dos mesmos por quem fica e tem de lidar com a perda. As personagens, durante seus lutos, não conseguem dar sequência às próprias vidas, até que por fim, aos poucos, permitem-se continuar suas vidas.

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