O Caso do Homem Errado (2017), de Camila de Moraes, por Sérgio César Júnior

O Brasil é um dos países latino-americanos que tem como base na sua formação social uma densa camada de pessoas de origem africana. Nossos ascendentes foram involuntariamente trazidos da África a essa terra entre os séculos XVII e XIX para servirem de mão-de-obra escrava na produção açucareira. Mesmo com a abolição da escravatura em 1888, quando vivíamos as quatro primeiras décadas de independência no regime monárquico, não abolimos em nossa sociedade a lógica do capitão-do-mato de segregarmos, perseguirmos e punirmos de modo aleatório nossos afrodescendentes. Mesmo com o advento do regime republicano a partir de 1889, ainda foi mantido o racismo institucional até os dias atuais. Não importando se o negro que vive em nossa sociedade é um humilde trabalhador, chefe de família, ou um jovem estudante do ensino superior, muitos são pré-julgados sofrendo torturas, prisões arbitrárias e até são mortos sem qualquer chance de comprovarem em juízo que são inocentes. Eis o tema do documentário O Caso do Homem Errado (2017), de Camila de Moraes. 

A proposta desse documentário é manter ativa a memória da população gaúcha sobre o caso de Júlio César, um ex-trabalhador que foi torturado e executado por agentes de segurança pública do estado do Rio Grande do Sul. Coloquialmente as testemunhas definem esse episódio como “o caso do homem errado”. Além dos pontos de vistas de testemunhas oculares, a narrativa documental é construída pelas análises críticas e declarações de pesquisadores dos estudos sobre violência, sociólogos, juristas, ex-procurador da República, membros de fundação de direitos humanos, jornalistas e familiares da vítima. Segundo essas testemunhas entrevistadas mostradas em talking heads, o fato ocorreu em 14 de maio de 1987 durante um assalto num supermercado em Porto Alegre – RS, a qual a Brigada Militar gaúcha havia sido acionada para impedir a ação dos assaltantes. Por coincidência Júlio César, durante o trajeto de retorno a sua residência, após cumprir o expediente de trabalho observou uma aglomeração na rua e curiosamente foi acompanhar o evento criminal do lado de fora do supermercado. Por ser epilético, Júlio César sofreu uma convulsão e alguém o apontou à polícia como um dos envolvidos no assalto. Contudo, nenhum dos brigadianos presentes prestou socorro a Júlio César, nem mesmo se certificou de que se tratava de um equívoco. A vítima foi detida, torturada até não aguentar mais e atingir o óbito. Esse fato poderia ser visto na época como uma anedota em tom deselegante e mórbido, pois no mesmo ano em que ocorreu o “caso do homem errado”, o Congresso Nacional trabalhava no texto da constituinte que seria conhecido como a “Constituição Cidadã” promulgada em 1988. 

Em estética fotográfica de imagens em branco e preto e algumas em cores em tons desbotados, a estrutura documental é desenvolvida ao modo de uma matéria de jornalismo investigativo de um programa televisivo de reportagens especiais. A própria cineasta, Camila de Moraes, nas cenas iniciais do filme interpela nas ruas do centro de Porto Alegre algumas pessoas comuns entre homens e mulheres afrodescendentes. Desde os mais velhos, até os mais jovens, a cineasta mostra a eles um cartaz da causa de Júlio César, com uma imagem retrato em branco e preto no meio com os dizeres “ATÉ QUANDO”? e “EXIGIMOS JUSTIÇA”! Muitos não sabem do caso, mas há até um senhor que desabafa, ao citar exemplos de racismo no comércio de Porto Alegre, quando um atendente de loja seleciona os clientes para serem atendidos, ou ignoram a presença dos afrodescendentes no estabelecimento. Antes de iniciar os trechos de declarações de testemunhas e especialistas, há um plano escuro com a seguinte advertência: “Esta HISTÓRIA é a mais pura VERDADE, embora RETRATE as maiores MENTIRAS”. 

Desde a abertura com os trechos de telas pretas, até em alguns outros trechos aleatórios do filme, na banda sonora há uma música instrumental de jazz que tem uma batida de percussão simulando disparos intermitentes de arma de fogo. Esse trecho musical sinaliza para o espectador, um clima de obscuridade na apuração dos casos de crimes cometidos pelo Estado. Ao ouvirmos essa música podemos nos remeter à banalização das execuções sumárias e arbitrariedade aplicada por agentes de segurança pública contra as pessoas comuns que nunca estiveram envolvidas com a criminalidade. As testemunhas e os comentadores do caso estão enquadrados em grande parte dos trechos do filme, em planos muito próximos dos rostos, com as identidades expostas, entre afrodescendentes e euro-descendentes de pele clara. A cineasta ao optar por fazer uma entrevista transparente, identificando o nome e mostrando seus entrevistados dá ao filme o caráter de seriedade à denúncia sobre a impunidade do poder público aos verdadeiros culpados. O que deixa a entender que esse caso, não é apenas isolado, nem tão pouco se tornou o único caso ocorrido no País, assim como a falta de impunidade gerou consequências atuais em nossa sociedade. O ponto principal dessas mortes ocorridas, no filme, é o racismo institucional.

Outra das preocupações da cineasta ao dar voz aos sociólogos especialistas no assunto violência, é a de apresentar dados atualizados do perfil da população encarcerada e morta por agentes de segurança pública. Alertando sobre o descaso público quanto ao índice preocupante do extermínio de jovens negros diariamente em nosso País. O que durante o tempo todo no filme o espectador pode fazer a seguinte pergunta: quantos Júlio César não são torturados e exterminados em nosso País?

Em O Caso do Homem Errado, Camila de Moraes apresentou um consistente trabalho de jornalismo investigativo e servindo de fonte de informação que deve ser refletida por historiadores, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, assistentes sociais, filósofos, jornalistas e especialmente juristas e agentes de segurança pública. Um documentário que deve ser visto por todos.

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