No pases por San Bernardino (2017), de Hugo Magaña. por Elen Doppenschmitt

No pases por San Bernardino (México, 2017), de Hugo Magaña, produzido pelo Centro de Capacitación Cinematográfica é um curta metragem de ficção, baseada em fatos reais, que coloca em primeiro plano a conscientização política de habitantes de um pequeno povoado rural a partir da dor do luto. Ao buscar os responsáveis pela morte de seu filho, a personagem Lígia enfrenta uma perda mais ampla que – não apenas dela – é de toda a comunidade: seus direitos.

O filme de 19 minutos inicia com imagens documentais de arquivos de noticiários televisivos e pessoais de registros de câmeras de aparelhos de telefones portáteis que evidenciam um enfrentamento entre manifestantes e policiais e cuja violência culmina em ferimentos e morte. Episódio revelado com inteligente ambiguidade ao espectador traz um relato que poderia ser vazio dado que não menciona onde e quando ocorrem os fatos e quem são os personagens. Isso não impede que a temática torne-se universal, uma vez que o foco é posto na violência: uma criança – sem rosto –, atingida por uma bala nos surpreende: Quem seria ela? O que estaria fazendo ali? A que resistiu? Como foi atingida?

A impossibilidade de compreensão inaugural da história do filme, cuja única chave é o título – remissão a um território interditado – vai contrastando, pouco a pouco, com o cotidiano de uma casa, cuja mãe como figura central guiará o espectador para que este possa alinhavar os fios soltos.

O tom documental não abandona o restante do filme e conduz às conversas em um café da manhã trivial no qual circula um desenho pré-escolar de uma família denotando seus membros e a preocupação pela falta de Juan, um menino que está hospitalizado e que não se sabe quando retorna. É pelo rádio que e mãe toma conhecimento de que Juan perdeu a vida e quando então o espectador conecta esse acontecimento particular com o episódio inicial.

Enquanto o noticiário informa que “a polícia agora investigará aqueles que podem ser os responsáveis pela tragédia”, percebemos que a atriz Angeles Cruz imprime uma dramática carga emocional ao compor Lígia. Ela entra em estado de choque e a câmera elegantemente alterna o plano detalhe do rádio para planos médios e close up da personagem para finalmente fechar a cena com um grande plano aberto onde a vemos ajoelhada num caminho de terra.

Já nos primeiros minutos é evidente a qualidade das imagens e das atuações que passa então a investir em cenas de interiores, dialogando com a pressão que exerce sobre essa mulher tanto as instituições públicas e sua burocracia quanto a manipulação dos manifestantes.
O itinerário percorrido por Lígia nas repartições públicas para conseguir um atestado de óbito lembra, por oposição, A Morte de um Burocrata (1966) de Gutiérrez-Alea, clássico do nuevo cine latino-americano. Enquanto o filme cubano tratava com ares burlescos o tema das formalidades das leis colocadas pelo novo regime, aqui é a melancolia da mulher indígena e camponesa que traz para o primeiro plano outra reflexão: cabe a ela “descobrir” não apenas os trâmites para poder enterrar seu filho, mas também aqueles que irão desvelar sua morte. Não se trata, portanto, de ignorar os mecanismos de funcionamento de um sistema, mas de ser ignorado por ele. Mesmo quando a liderança do movimento popular recorre a Lígia para sugerir a ela que encabece a luta para acusar a polícia de haver atirado em Juan, a mãe sente-se manipulada por falta de meios para saber a verdade. Do mesmo modo, suas tentativas de saber a versão das autoridades locais trazem como consequência a chantagem e o suborno.

Lígia então decide tomar partido e integra-se às marchas populares contra a polícia. Entretanto, vê-se a melancolia em seu rosto, a descrença de que qualquer ato de manifestação possa lhe trazer respostas para o que realmente aconteceu. Ela é pressionada a dar entrevistas, a ser porta-voz de um movimento popular que quer alcançar visibilidade por meio da figura da mãe que luta pela verdade sobre seu filho. E é nesse ponto que o curta parece finalmente demonstrar a visão crítica de Magaña acerca dos movimentos populares e sua relação com a mídia.

O argumento de Lígia sustenta-se no fato de que seu filho era uma criança e que, portanto, também fora manipulado. Segundo ela, Juan não estaria ao lado dos manifestantes, apenas cruzou a autoestrada para ir à escola. Já o argumento da liderança é o de que Juan teria lutado por justiça, termo que também fica ambíguo e vazio, dado que até agora o espectador que desconhece o contexto não compreende qual é a luta travada.
Localizada em Puebla, San Bernardino Chalchihuapan é uma localidade mexicana com população aproximada de 3.890 habitantes, em sua maioria descendentes de indígenas. Segundo as últimas estimativas da Comissão Nacional de Desenvolvimento dos Povos Indígenas, a população indígena de Puebla chega a um milhão de pessoas, um quarto da população do Estado.

Nos municípios mexicanos, a máxima autoridade nas comunidades são os chamados presidentes auxiliares, uma vez que essas estão distantes da capital municipal. Tais autoridades nomeiam um chefe de polícia e administram o lugar, além de também exercer a função de juízes do registo civil. São eleitos por um sistema direto, sem participação dos partidos políticos.

Em 2014, San Bernardino teve protagonismo internacional porque foi palco de uma luta entre os habitantes locais e os policiais de elite na infantaria. Ocorreu na rodovia Puebla – Atlixco, pois esta foi bloqueada pela população local em protesto à perda de autonomia das juntas auxiliares de Puebla que, entre outras coisas, retirava dos presidentes auxiliares a função de juízes do registo civil. Naquela ocasião, sabe-se que, em pelo menos 190 povoados do Estado, não nascia nem morria ninguém e nem mesmo se casavam já que oficialmente não haviam registros.

Como os habitantes não quiseram atender aos ultimatuns da polícia, essa se manifestou violentamente. A população que também estava munida paus, pedras e bombas molotov reagiu e no meio do enfrentamento houve o falecimento de um menor que, em teoria, poderia ter sido atingido tanto pelos manifestantes quanto pelos policiais. Mas o que é importante compreender é que o ocorrido teve como palco a aplicação, pela primeira vez, de uma lei que foi ironicamente aprovada: a que permitia o uso de armas para dispersar concentrações públicas.

José Luis Tehuatlie, o Juan, do curta em questão, foi vítima – em julho de 2014 – da lei criada para “proteger os direitos humanos e regular o uso legítimo da força pelos elementos das instituições policiais do Estado”, a qual o Congresso regional havia aprovado em maio do mesmo ano. Conhecida como “Lei Bala”, alcunha dada pelos jornalistas, essa lei permitiu à polícia de Puebla usar armas de fogo e outras letais contra as manifestações violentas, emergências e desastres naturais.

No caso em questão, inicialmente, o governo de Puebla negou o uso de balas de borracha, mas a pressão popular causada pela morte do estudante forçou o governador, Rafael Moreno Valle, a anunciar a revogação da lei.
Outra raridade é a também conhecida “lei anti-manifestações”, uma versão amenizada da “Lei Bala”, a qual pretendia que os manifestantes solicitassem autorização para “se manifestar” com 48 horas de antecedência. Mais amena, essa lei mantem a proibição de realizar bloqueios em vias públicas e permite às forças de segurança “aplicar medidas pertinentes” contra as manifestações.

A Comissão Nacional dos Direitos Humanos não fez uso das faculdades legais para promover ações de inconstitucionalidade contra as iniciativas anti-protestos civis. Pelo contrário, em outubro de 2013, recomendou ao Senado reformular o Artigo 9 da Constituição no tocante à livre manifestação pública e ao uso da força pública.

O filme de Magaña traz para o centro da discussão a falta de imparcialidade das leis, ao mesmo tempo em que chama a atenção para a manipulação dos fatos pela mídia em momentos de apatia política quando duvidamos até mesmo das bandeiras mais louváveis, erguidas pelos movimentos sociais.

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