Niñas Arañas (2017), de Guillermo Helo. por Marília-Marie Goulart

No cotidiano inundado por imagens e anúncios publicitários, o mito do consumo democrático faz crer que todas temos a potencial capacidade de acessar as incontáveis ofertas exibidas indiscriminadamente à população. Apresentado como um direito, o consumo se revela como um verdadeiro dever: é preciso consumir para se tornar sujeito, para ser socialmente reconhecido e adquirir o status de cidadão. Fora dos anúncios, o mito do consumo democrático rapidamente se esvanece e revela sua face perversa: as imagens de felicidade, liberdade, pertencimento e adequação livremente oferecidas pelas propagandas apenas se concretiza para uma parcela bastante pequena da população. Para a grande maioria a oferta é uma imago perversa, mas atraente, que será perseguida com juros e prestações. Como Sísifo a carregar sua pedra, a tarefa do cidadão-consumidor nunca se completa. Com contrastes extremos as cidades expressam o abismo social em sua superfície cindida entre territórios destinados aos que “podem ter” e aos “desprovidos”.

Niñas Arañas desnuda com crueza essa dinâmica, mobilizando recursos estético-narrativos para expressar a violência simbólica e real resultante de uma sociedade extremamente desigual devota de um modelo de consumo impraticável. No longa-metragem acompanhamos as desventuras de três adolescentes: Avi, Cindy e Estefany pela capital chilena. Moradoras da Toma Modelo de Peñalolén, maior ocupação de Santiago, as meninas são defrontadas em seu cotidiano com um mundo diferente daquele que lhes cerca. Contrastando com a escassez e violência que lhes rodeiam, a TV, as revistas e os outdoor apresentam um outro lugar cujo conteúdo lhes é bastante familiar, mas onde, sabem, são estrangeiras. Seduzidas pelas imagens que apresentam uma Santiago da beleza e do conforto, repleta de sabores, cores e novidades, o trio busca escapar do precário lugar social onde estão. A tentativa é empreendida com incansáveis fugas que se expressam no campo estético através do travellig e constante deslocamento da câmera e das personagens.

Realizando pequenos furtos, as jovens logram desfrutar brevemente das imagens dessa “outra” Santiago. Doces, comidas de fast-food e revistas de celebridades representam um alívio no cotidiano de violência doméstica e ameaças sociais. Penetrando mais efetivamente no “outro lado” as jovens passam a realizar incursões pelas ruas da Santiago rica. Se no princípio questionam se podem simplesmente circular pelos espaços públicos destinadas à outras camadas sociais, rapidamente o trio passa a ter confiança de circular nesse lugar. Impulsionadas pelo desejo de participar do outro mundo, as jovens passam a engenhosamente entrar em edifícios de bairros ricos para subtrair pequena quantia de dinheiro, alguns itens pessoais, mas principalmente saborear esse lugar; como aranhas em uma fábula infantil, o trio consegue passear pelos estratos do topo da pirâmide social.

Em Niñas Arañas os espaços da cidade são elementos importantes na expressão da cisão social. Do alto do morro que cerca Peñalolén, nos breves respiros das incansáveis fugas, ao fundo da paisagem, as jovens podem alcançar com os olhos a Santiago das revistas e novelas. Acima dos adultos e dos conflitos cotidianos, elas compartilham aspirações adolescentes, como ser famosa, adquirir a casa de verão anunciada na revista ou o novo garoto da mídia. Mais do que o desejo de consumir esses itens, as jovens expressam o anseio de integrar esse mundo de imagens que lhes é oferecido e negado. Mais do que deter mercadorias, consumir é uma tarefa necessária para escapar da invisibilidade e para integrar a sociedade (de consumo) que lhes cerca. A visão do topo do bairro oferece também uma imagem dolorosa: a paisagem que têm à frente expressa o contraste da pobreza de suas casas com o restante da cidade onde figuram espaços verdes e modernos arranha-céus. Chocando-se contra suas aspirações a intensa imagem da ocupação com ruas de terra batida e residências improvisadas reafirma com dureza o lugar dessas meninas em um bairro onde impera a escassez e que parece estar apartado da cidade que se exibe ao fundo.

Como um contra-plano da vista que têm de Peñalolén, do topo de um dos prédios que escalam no “Bairro Alto”, região onde habita parte da população que concentra os maiores recursos de Santiago, as jovens podem devolver o olhar para suas casas. Deslumbrada com o pôr do sol digno de um comercial Estefany constata: “daqui se vê tudo”, mas Cindy rapidamente complementa: “menos nossas casas”. O olhar ao revés, ancorado no ponto de vista da desejada (e rica) Santiago lhes apresenta a sua completa invisibilidade. Na paisagem do “comercial”, no lugar que cobiçam, sua existência é negada. Como Sísifo, elas chegam no cume apenas para constatar sua queda.

A despeito de suas incursões, defrontadas com a paisagem e com o ambiente que lhes cercam, as aspirações ligadas a esse “outro mundo” logo se esvanece. O contraste entre suas ambições e a realidade que lhes cerca é brutal. Diferente dos comerciais e dos aconchegantes lares do Bairro Alto, na Toma Modelo de Peñalolén impera a aspereza e a falta dos itens mais básicos. A consciência da desigualdade vai crescendo junto à desesperança e rapidamente elas constatam que não importa o que façam, elas e seus pares fazem parte do largo grupo que jamais integrará o outro lado.

Na atualidade, o que engaja a incessante atividade de consumo é a busca de sair da invisibilidade, captar o olhar dos outros (consumidores), tornando-se assim atrativo, desejado como uma mercadoria cobiçada: essa é a matéria que compõem sonhos e contos de fadas. A reflexão é válida para o trio de personagens e para o sem número de jovens das metrópoles latino-americanos que tragicamente têm o consumo de bens como via de acesso àquilo que lhes é negado. Para o trio de Niñas Arañas entrar nos apartamentos representa simbolicamente penetrar no mundo das imagens, naquele mundo que lhes é ofertado na TV e nos anúncios. Mas o ingênuo desejo de serem vistas é rapidamente apropriado com perversidade. Longe das páginas de celebridades, as três meninas terão visibilidade e serão desejadas como mercadorias de outro departamento. O espaço que lhes é reservado será na sessão policial, onde têm reforçado seus estigmas e a impossibilidade de sair do lugar precário de onde tentam fugir.

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