Mulheres do Caos Venezuelano (2017), de Margarita Cadenas. por Mona Perlingeiro

Mulheres do Caos Venezuelano levanta inúmeras questões, mas decide ter narrativas sobre o atual contexto político e social da Venezuela através de narrativas femininas. É muito comum não refutarmos documentários que fazem um recorte sobre qualquer situação complexa social quando contada pela voz de homens; tomamos essas narrativas como o recorte do real, como a visão que deve ser compreendida como a que vale a pena ser exposta e reproduzida. Porém o mesmo não acontece com produções protagonizadas por mulheres, colocando-as no cerne de uma conjuntura política extremamente complexa. Contudo, não é possível ter uma visão limitante sobre o papel da mulher diante deste longa da venezuelana Margarita Cadenas, que levou sua equipe ao seu país de origem em um momento de muitas limitações impostas pelo governo de Nicolás Maduro.

O documentário faz uma leitura sensível e íntima dos impactos da atual crise humanitária da Venezuela, narrando a história de cinco mulheres com funções, idades, origens e situações econômicas bastante distintas, diversificando os possíveis olhares que o espectador pode ter sobre os embates sociais que as decisões arbitrárias do atual governo venezuelano impõem sobre a população.

O longa não enfatiza as origens do estado de exceção em que se encontra a Venezuela, mas consegue, no entanto, dar um panorama sobre como a crise é vivenciada no cotidiano. Neste sentido, podemos observar que há muitas semelhanças entre as consequências  dessa situação aflitiva no país com as de nações que estão em guerra, tais como: perseguição política; ameaça e tortura de opositores; inflação; escassez de produtos básicos; alta criminalidade e censura de imprensa, além de ter as maiores taxas de violência urbana do mundo, estima-se que um venezuelano seja assassinado a cada 21 minutos. 

O abismo entre as expectativas que haviam sobre a Venezuela de pouco mais de uma década atrás com a atual realidade do país governado por Nicolás Maduro, é enorme. Antes considerada uma das maiores potências do continente, principalmente por causa de suas reservas de petróleo, hoje não fornece nem água ou alimentação suficiente para a sua população de pouco mais de 30 milhões de habitantes, sendo que aproximadamente um milhão e meio são refugiados ou estão em processo de solicitação de refúgio

Logo nos primeiros minutos da produção, observamos em um plano aberto a lembrança da transição do governo de Hugo Chávez para o governo atual, onde lemos em um outdoor “Somos los de Chávez”. Embora Maduro seja sucessor do ex-presidente morto em 2013, além de suas políticas não funcionarem para população marginalizada, seu governo também elevou o número de pobres em mais de 80% no país.

A primeira narrativa inaugura a noção de, como dentro do sistema de saúde, essa realidade atinge profissionais e pacientes, obrigando a enfermeira Kim – diante da falta de recursos básicos em hospitais – a escolher entre aqueles que têm mais ou menos possibilidades de sobrevivência. A situação é alarmante, e é incontestável a sensação de impotência que a enfermeira enfrenta. 

Um dos recursos que será utilizado durante todo o documentário é o de concentrar as narrativas em situações cotidianas. Acompanhamos Kim em casa, onde organiza sua mudança para outro país, até o caminho do trabalho, espaço no qual podemos constatar a instabilidade que se confronta diariamente no hospital. Em nenhum momento deixamos de ouvir seus relatos, que vão paulatinamente nos deixando mais íntimos de sua vida. O contexto macro político ganha um outro plano, o de como a recessão abarca questões corriqueiras, e é diante dessas circunstâncias que o espectador consegue compreender os pormenores de um colapso sociopolítico, que atualmente é também uma crise humanitária.

As cenas gravadas no hospital são bastante intrigantes, uma vez que a censura no país é muito grande e a perseguição, prisão e até mesmo tortura de pessoas que ousam denunciar os acontecimentos é algo que pode ser relatado por qualquer opositor que já esteve diante de uma ameaça governamental. A direção e produção do longa foram significantemente destemidas. O nível da contradição e omissão é tão marcante, que a imprensa divulga informações que não coincidem com a realidade apresentada pelo filme, como podemos ouvir em cenas intercaladas com as notícias das rádios.

O relato de Maria José oferece uma visão mais ampla sobre como a classe média se organiza para lidar com a escassez de produtos básicos e água. Mesmo as famílias com mais recursos e possibilidade de organização, constatam a impossibilidade de assegurar a proteção que gostariam de destinar a seus filhos e até mesmo a si mesmos, tendo que encarar a possibilidade de perder o que foi adquirido até aquele momento. As prioridades mudaram completamente: busca-se garantir, pelo menos, o básico. Ademais, é reconhecida a sensação de estar sob perigo o tempo inteiro. Maria José afirma a dureza de saber que seus filhos terão que “aprender a viver com esse medo”.

Mudamos de contexto social através de Eva, uma mulher de traços indígenas e em situação financeira menos favorável. É através dela que identificamos o cotidiano de quem enfrenta filas desde a madrugada para conseguir o mínimo de abastecimento; não há garantia alguma neste sistema desenhado pelo governo. Mesmo depois de passar um dia inteiro na fila de reabastecimento, a incerteza de se conseguir ou não algum produto é perene. Há uma guerra psicológica de abastecimento, além do cansaço físico que essa busca inflige. 

As cenas do trajeto que esta personagem percorre para conseguir abastecimento mostram uma típica cidade da América Latina, cheia de contrastes, que sugerem uma sensação de ruínas vindouras. O governo entrega para o povo toda a tensão dessa situação, fazendo com que pessoas na mesma condição não se entendam, criando conflito entre iguais. Contemplamos a obra do artista plástico venezuelano Jesús Rafael Soto em Caracas, contrastando com as cenas das filas de abastecimento da madrugada, talvez refletindo a lembrança de uma Venezuela de outrora em comparação com a realidade que é apresentada no contexto sociopolítico em que a película foi realizada.

O depoimento seguinte parte de Luísa, mãe de um preso político, o (ex) deputado Rosmit, encarcerado sem acusação formal ou provas encriminatórias. As imagens de seus pertences mesclados com a ausência física de Rosmit atribuem o valor poético da obra, sensibilizando o espectador na perspectiva mais pessoal desse complexo estágio que um dos maiores países da América do Sul experimenta. Somos atravessados pela perplexidade e pelo desespero internalizado de Luísa. Ela e seu marido já idosos,  narram o dia-a-dia de quem vê um filho sofrendo violência psicológica em isolamento.

Olga, última personagem, será revelada após uma sequência que aspira alcançar um tom de serenidade e calmaria. Em um local que se assemelha a um resort com imagens de santos pulando o ambiente, ela surge narrando sua história de forma muito digna e pessoal. Entre todos os relatos, este é o que revela o lado mais extremo e hediondo da atual Venezuela. É notável sua origem e a situação econômica em que vive, como ela mesma conta em seu relato, por todas essas razões, a justiça é praticamente inalcançável.

Os assassinatos perpetrados por militares venezuelanos são bastante corriqueiros, e acontecem de forma banal. Não há cuidado em averiguar a verdadeira identidade de quem os representantes do governo pressupõem “suspeito”. Constatamos o caráter de denúncia do documentário. É um grito, um pedido de ajuda, um clamor por justiça, e é com o relato de Olga que o documentário termina. 

Metade das mulheres que compartilharam seus depoimentos já conseguiram sair do país. Atualmente, a maior parte dos pedidos de refúgio recebidos pelo governo brasileiro partem da Venezuela, com mais de 30 mil solicitações no primeiro semestre de 2018. 

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