Keyla (2017), de Viviana Gómez Echeverry. por Sérgio César Júnior

As Antilhas são um conjunto de arquipélagos da faixa Dorsal Atlântica que se estende da região da Meso-América até o norte da América do Sul, onde grande parte dos turistas se sentem atraídos para experimentar dois tipos de sensações: fascínio e prazer. Muitas informações históricas, geográficas, antropológicas, científicas e as lendas que circulam sobre esses arquipélagos contribuíram para formar um imaginário exótico. Um lugar visto como paraíso insular onde podemos vivenciar todos os tipos de aventuras. Desde um simples romance de verão com os locais, mergulhar por entre os bancos de coral, praticar pesca submarina e até mesmo caçar um milenar tesouro escondido. Essa magia se deve a uma relação misteriosa que o nativo antilhano desenvolveu com o mar, a partir do espírito corsário que está o tempo todo rondando as ilhas e mantendo contato com seus habitantes. A comunicação entre os antilhanos e os ancestrais espíritos dos piratas se dá por meio dos sinais contidos nos sonhos. Keyla, a personagem título do filme só consegue encontrar com o seu pai durante esses períodos de sonhos.

Keyla é uma jovem mulher filha de um capitão de embarcação desaparecido em alto-mar. Com olhar taciturno, face tristonha, Keyla parece ser carente de uma atenção carinhosa, porém, se mostra independente, realista e obstinada em apenas saber do paradeiro de seu pai que desde o dia que saiu para pescar, não regressou ao lar. Em grande parte do filme, a personagem está sempre olhando para o mar e acompanhando de longe o trabalho das embarcações da guarda costeira que faz buscas a seu pedido. A protagonista usa um colar em formato de corrente com um pingente de âncora marítima. Um talismã emotivo o qual a mantém segura de qualquer movimento de maré da vida que a tente lançar a deriva de sua ligação afetiva com seu progenitor. A personagem vive com o seu tio paterno na ilha de Providência, um departamento colombiano pertencente ao arquipélago de San Andrés localizada no Mar do Caribe. No contexto do filme a possessão territorial da ilha está sendo disputada pela Nicarágua, o país mais próximo. No entanto o impasse diplomático entre os dois países latino-americanos parece não preocupar os habitantes da ilha, nem tão pouco a protagonista. 

Na diegese do filme a distinção entre passado e presente é muito tênue. Em grande parte das cenas o tempo diegético se alterna entre flashbacks, imagens mentais de recordações, ou oníricas e o tempo real. Depois dos planos escuros de abertura do filme contendo sucintas informações da ficha técnica vemos nas cenas iniciais, em contra-plongée algumas gaivotas suspensas no ar, um grupo de cinco aves contra o vento planando em contraluz. A câmera com foco no voo das aves faz um curto movimento de chicoteio mostrando ao fundo um céu formado por suaves nuvens e no canto direito da tela notamos numa dessas nuvens uma densa luminosidade solar. Esse plano que contempla o voo das aves e o céu de fundo com efeito técnico de noite americana parece nos indicar alguma situação obscura, sinistra, tempestuosa, agouro inconveniente, ou notícia nada agradável a vir. 

A cena seguinte é composta de planos de imagem mental oriundas do período final do sono de Keyla. Essas imagens manifestam os sinais de ansiedade por obter notícias de seu pai e, esteticamente estão em estado de desgaste. Imagens semelhantes às de um velho filme caseiro em formato de super 8 sofrendo com a ação do tempo, desbotando suas cores, perdendo a nitidez das informações visuais e desenvolvendo fissuras. Nesse primeiro sonho de Keyla é possível identificar a fusão de dois tempos de sua vida, o da infância e o atual na fase adulta. O tempo de infância marcado pela atitude pueril e lúdica com seu pai de correr pela doca já o tempo atual, o qual é identificado pelo seu corpo adulto de mulher. No sonho pai e filha correm pela doca. O progenitor mergulha nas águas do oceano e Keyla mergulha em seguida, porém quando emerge à superfície aquática recebe uma marola em seu rosto e de repente não encontra mais a figura paterna. Esse pesadelo a faz rapidamente despertar pela manhã. No tempo real da narrativa fílmica as imagens retomam o aspecto nítido com cores definidas, contudo o pesadelo da ausência do pai querido continua no restante da diegese. 

Com a chegada de sua madrasta acompanhada de seu meio irmão mais jovem Francisco – tratado por “Cisco” – vindos da Espanha provoca na protagonista um sentimento de intranquilidade. Há um ranço de Keyla frente à situação de abandono ainda quando criança e quando o seu pai estava presente, pela madrasta. As imagens mentais de flashback, na cena da partida da sua madrasta (durante a sua infância) é uma indicação da lembrança traumática que permanece na sua cabeça. Contudo, mesmo com o sentimento de mágoa pela progenitora de seu meio irmão, Keyla demonstra afeição fraterna por Cisco. Ambos os irmãos sintonizam os mesmos interesses por mergulho submarino, na caça em terra a um possível “tesouro escondido” informado num mapa legado pelo pai e até chegam a passar uma noite fora de casa dormindo no chão da doca. O relacionamento com o irmão mais novo fez com que Keyla revisse seus conceitos sobre a ex-companheira de seu pai e que compreendesse melhor o ponto de vista sobre o passado. De forma natural, a situação foi se ajeitando e uma nova família foi se formando dentro de um evento trágico da constatação de que as esperanças de encontrar seu pai vivo, não seria mais possível. Então resta ao nativo antilhano reunir todos os presentes para participarem juntos dos tradicionais rituais espiritas de contato com as almas dos entes queridos. 

Keyla é o filme feito de discretos sinais sobre os sentimentos afetivos familiares que podemos observar nos símbolos náuticos, na maneira espirituosa da lida cotidiana em meio ao mar e na crença popular dos espíritos corsários. Na narrativa desenvolvida por Viviana Gómez Echeverry, os sonhos durante o sono noturno se tornam territórios livres para a circulação de todas as almas relacionadas ao universo sentimental de algum ser humano. Cada sonho é um a ilha dos tesouros humanos, os quais só podemos reconhece-los quando nos despojamos do olhar exótico de turista e passamos a navegar pela maré onírica de seus personagens, sob a carta de orientação dos vínculos com a vida. 

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