Fôlego (2018), de Renato Sircilli. por Paola Louise Ferreira de Rezende

“Será que tem tudo, necessariamente, tem que ter um fim? Se sim, como aceita-lo?”, são questionamentos que ao menos uma vez na vida já enfrentamos. Na vida ou na morte. Digo na morte de um ente muito querido, por exemplo. Superação. Tá aí, um tema que nem sempre é abordado com a sutileza que merece. Mas às vezes, nessa busca pela superação, tudo o que precisamos é tomar um fôlego antes de mergulhar nesse mar de sentimentos que vem à tona e que pode sufocar.

Fôlego, o novo longa do diretor Renato Sircilli, se inicia com um plano geral de uma floresta que parece ser da mata atlântica. As árvores estão verdejantes e os pássaros cantam solenemente. Então percebemos que se trata de uma projeção compartilhada da tela de um computador. O plano da copa das árvores é minimizado e vemos na lateral o programa WhatsApp Web aberto em uma conversa, além de uma música que toca por via YouTube.
Acompanhamos, ao longo do filme, a conversa entre dois amigos pelo aplicativo de mensagem WhatsApp. O diretor de “Fôlego”, Renato, pede para que Bruno, um ator, conte mais sobre suas tatuagens que foram feitas em homenagem à sua mãe, falecida recentemente. Este pedido vem um momento que o diretor percebe que “só a ficção não tava dando conta”.

Portanto, é assim somos mergulhados em uma maresia de memórias de Bruno a respeito da convivência de sua mãe, da espera de uma catarse após sua morte, de uma superação ou da sublimação. No entanto, tudo o que permanece é o mofo. Este mofo que faz prevalecer em nós, enquanto seres que tende ao fim, o sentimento da inexistência, afinal, tudo no fim um dia vai virar pó, ruína, desesperança…

Bruno perdeu sua mãe recentemente e Renato precisa terminar o filme. O próprio filme que estamos assistindo. Isto é, o filme sobre os sentimentos de Bruno em relação à morte da mãe. Os dois amigos conversam frequentemente via Whatsapp, hora para pedir arquivos, fotos, vídeos, hora só para desabafar mesmo. Além de Renato, o ator não parece, ou pelo menos não é mostrado, ter outro amigo. Ele até que se envolve sexualmente com algumas pessoas, no entanto não é uma relação de parece ser construída firmemente. Aos poucos Bruno parece se afastar ainda mais do contato com as pessoas e se aproxima dos mesmos desejos que eram de sua mãe, de passar mais tempo na natureza, na praia. Talvez assim ele fosse feliz, julga.

Mas, além de tratar de assuntos relacionados ao sentimento da perda, esse filme nos explicita as diversas experiências que temos com o uso da tecnologia. Renato utiliza a tecnologia para montar seu filme, constantemente abre em seu computador parte do material que ele vai colocar no filme. Enquanto isso nós experimentamos o filme já acontecendo bem alí na tela do computador que é compartilhada com o espectador e, portanto, se transforma em écran.

Outro tipo de relação com a tecnologia é aquela que perpassa a amizade dos garotos. Naturalmente, ou às vezes com intuito de coletar algum material para o Fôlego, Bruno e Renato conversam sobre seus sentimentos a respeito das coisas que chegam ao fim, que se ruinam com o passar o tempo, mas que mesmo assim não são fáceis de serem esquecidas, pelo contrário deixam marcas profundas.

A relação com a tecnologia nesse longa, portanto, não se trata de apenas mostrar os processos de produção de um filme, por exemplo, a criação de um argumento, coleta de vídeos, fotografias, depoimentos… Também trata-se de mostrar como tem se dado a relação de amizade por meios digitais, o principal meio de comunicação nos dias atuais. Os garotos não se encontram pessoalmente para conversar sobre esses assuntos que exigem sensibilidade, mas percebe-se que eles nutrem uma amizade que não é frágil, é uma relação da qual podem compartilhar sentimentos que envolvem tristeza. Sabe-se que nem todos os homens permitem-se sentir tristeza, muito menos demonstrar para outro homem que a sente. Boys don’t cry.

Então, Fôlego é um filme que trata da finitude da figura materna de um jovem que busca lidar da melhor maneira possível com essa situação, nem que seja superando-a. Renato, de alguma maneira, parece ajudar Bruno nessa busca realizando este longa. No entanto, tem-se a impressão que tudo o que fica é o mofo mesmo. “É só mofo. É só fungo.” Parece que a vida é algo como ter que ir aprendendo a viver um dia há mais, mesmo sabendo que já temos um dia há menos. E disso seremos constantemente lembrados. Pois enquanto vivermos, antes nós, outras pessoas chegarão mais próximas do esquecimento. A finitude do outro é sempre uma reminiscência da nossa própria finitude. De qualquer forma, Bruno e sua mãe terão mais um tempo de fôlego de existência, visto o grande trabalho que Renato empenha em coletar e preservar suas memórias em um filme.

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