Elena (2017), de Ayerim Villanueva. por Vivian Berto

O curta “Elena”, de Ayerim Villanueva, se inicia com uma sequência de três closes do rosto da protagonista, uma adolescente de 17 anos, no chuveiro. Não temos clareza do cenário ao redor: somente vê-se um pouco, ao fundo, os azulejos monótonos de cor bege e o box do banheiro, em marrom, quando Elena se aproximará dele no momento seguinte. Na sequência, seu rosto, sem nunca olhar para o espectador, nos dá uma interpretação ambígua, principalmente quando começa a morder o lábio inferior: estará a protagonista divagando em pensamentos ou engajada em uma masturbação silenciosa? A voz de Tita (segundo o plot, sua avó, e que parece ser a única parente de Elena) e sua tentativa de abrir a porta interrompem o momento íntimo da menina, apressando-a para lavar a louça e criticando: “Por que trancou a porta?”.

“Elena” é uma crônica sobre uma adolescente de dezessete anos que tem dúvidas sobre sua orientação sexual. Ou é isso o que nos informa o plot do filme, pois, nas suas imagens, a dúvida não parece pairar sobre a protagonista. Por exemplo, no momento em que a vemos receber em sua casa, por uma noite, a amiga que vem de longe, Julia. Entendemos que talvez houvesse uma antiga relação amorosa entre ambas (interrompida pela própria avó de Elena?). O espectador não consegue ter noção da origem desse relacionamento amoroso, pois, não há nenhuma cena de flashback, ou objeto, ou qualquer indício que traga alguma informação. Somos apresentados a Julia por meio de uma mensagem de voz que Elena recebe quando está no ônibus, indo para o trabalho – novamente, o close em seu rosto coloca Elena em primeiro plano e pouco sabemos sobre o que há ao redor. Julia conseguiu um emprego na praia e, dando a entender para o espectador que ela mora longe, pede para dormir na casa de Elena. Ao ouvir a mensagem, a protagonista exibe um sorriso.

Já Tita é uma mulher rígida e uma católica fervorosa. Percebemos isso no cabelo preso, no terço que porta na mão e na decoração da casa, como por exemplo, no discreto crucifixo pendurada na parede da cozinha e na imagem pintada de uma Virgem pendurada na parede de seu quarto. Reclama que Elena chega tarde do trabalho e implica com a porta trancada no banheiro – atitude que sugere perversão sexual, aquele momento de intimidade com o próprio corpo nu, ou então com os próprios pensamentos. Quando sabe da visita de Julia, responde friamente, enquanto o close enquadra o rosto quase sempre apático de Elena, o que nos dá pouca resposta sobre a reação da adolescente frente à dureza da avó. Saberemos na sequência seguinte que Elena desconsiderou a ordem e colocou Julia para dentro, escondido, sem que Tita soubesse.

Depois de uma festa, as meninas voltarão para a casa de Elena e farão sexo, em cenas escuras, permeadas de uma luz amarelada, sempre com o close próximo. Somos imersos num ritual silencioso de suspiros, que mistura cabelos e pele das meninas. As cenas são mais ternas, íntimas, suaves (como a primeira cena do chuveiro) do que eróticas. Sugerem a relação anterior das duas pela proximidade do toque, o beijo carinhoso no queixo e a carícia nos cabelos depois da relação, por exemplo. São sem dúvida cenas mais ricas que o escrachado encontro na porta do banheiro da loja entre Elena e sua chefe/gerente Claudia, que encarna um estereótipo de mulher lésbica assediadora, masculinizada, machista.

Há uma suavidade com a qual o curta trata a homossexualidade feminina e adolescente. Primeiro, trabalhar o tema no Caribe, com sua complexidade cultural, social, religiosa, não pode ser tratado da mesma maneira que os filmes e seriados norte-americanos o exploram, o que muitas vezes compreende a famigerada “saída do armário”, sempre com conflitos envolvidos. Segundo, pela personalidade da protagonista e pela forma como ela escolhe lidar com a sua sexualidade. Elena não recusa sua homossexualidade nem parece ter conflitos em relação a ela, mas também não se rebela contra o temperamento da avó. Não sabemos exatamente por que a menina continua morando com Tita, que é relativamente jovem e nenhuma doença é especificada para o espectador para que force Elena, moralmente, a ficar ao lado dela. Tampouco Elena é jovem demais para sair de casa. Mas quando Julia pede para Elena ir morar com ela por seis meses em seu novo trabalho, a menina recusa, sem demonstrar nenhuma dúvida em frente à amiga/amante. A escolha pela não revolta, a recusa da saída do armário, é presente na vida de muitas lésbicas e gays, seja qual for a razão. “Elena” nos mostra com delicadeza essa alternativa.

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