Dry Martina (2018), de Che Sandoval. por Vivian Berto

Dry Martina é uma comédia com leve aroma decadente sobre uma cantora que fez muito sucesso nos anos 1990 e, em sua nova fase da vida, se sente definhada tanto artisticamente quanto sexualmente – portanto, o “dry” do título. Vemos uma associação pouco usual entre potencial artístico e, se é que poderíamos dizer, “potência” sexual feminina. A história se passa entre Buenos Aires e Santiago, quando Martina sai de sua terra natal para ir atrás do homem que, afinal, a fez gozar.

(Na verdade, Martina não está tão velha para ser a artista decaída e frígida: a moça nem ao menos aparenta ter quarenta anos. Seria este um exagero do filme ou é mesmo a exigência da sociedade latino-americana e, em especial, a argentina, em cima da conservação extrema da beleza e juventude das mulheres?)

Logo no início do filme, somos apresentados a uma belíssima sequência na qual Martina canta com uma banda num pequeno palco. Está maquiada com sombra prata extremamente brilhante e batom escuro, e veste um vestido curto e igualmente prateado. As cores intensas das luzes combinam com o tom dramático da cena, que lembra um cabaré. Após cantar alguns versos da música, Martina sai do palco, andando em meio ao público do bar, como algumas cantoras de pequenos recintos costumam fazer – nada de especial. Porém, a personagem começa a se afastar cada vez mais do palco. Vai para a sala contígua, que tem um bar, passa pelas pessoas dali. Acompanhamos Martina até ela sair completamente na calçada do edifício e entrar num taxi, abandonando completamente o show. A primeira cena mostra já de cara o que podemos esperar de Martina.

O modo como a protagonista se joga parece, então, mais acentuada no filme do que uma decadência trazida pela idade e pela queda do sucesso. A cena em que Martina recebe uma empolgada Fran – sua fã, que acredita ser sua irmã por parte de pai – na porta de casa e a recebe com desdém, apoiada à porta, vestindo um quimono estampado, que remete a uma diva reclusa, é pouco perto das outras imagens da cantora no filme, principalmente depois que ela vai para Santiago do Chile, onde a história realmente se desenvolve.

É uma mulher intensa, não num sentido dramático, mas no de aproveitar a vida sem remorsos e sem pedir desculpas. Martina exala sensualidade. Usa blusas de malha fina sem sutiã, shorts curtos e decotes profundos. Quando chega à capital chilena pela primeira vez, veste uma camisa estampada completamente transparente, sob a qual se desenha o sutiã. Se diverte intensamente em várias situações, do fumar maconha no carro ao pular ao som de uma banda feminina de pop rock num bar de adolescentes. O modo como se porta, anda, senta, sugere sempre uma mulher exuberante e muito segura de si mesma – talvez até excessivamente “devoradora” nesse sentido, o que muitas vezes corresponde mais ao desejo masculino que propriamente à liberdade sexual das mulheres.

A relação entre as duas hipotéticas “irmãs”, Martina e Fran, é um dos pontos altos do filme. Se Fran foi de início rejeitada por seu ídolo, que só chegou a Santiago porque tinha interesse em seu namorado, César – Martina não sentia tesão há muito tempo, antes de conhece-lo –, a relação entre os dois só se torna o veículo para unir as duas mulheres. Chega a ser objeto de uma briga/separação depois, rapidamente reparada. Poderia se dizer que a relação próxima entre as duas é até uma virada inesperada no roteiro – que o diretor, Che Sandoval também assina. Esperaríamos, sob uma narrativa cinematográfica “tradicional”, duas mulheres, a amante certamente mais sensual e atrativa que a namorada, disputando um homem de uma relação estável. Ou seja, a “devoradora de lares” chegaria para abalar uma vida anteriormente feliz e moralmente irrepreensível. Mas, em Dry Martina, nos vemos livres do “bonitão” ao focar no desenlace da relação entre Fran e Martina. A segunda afinal começa a gostar de Fran, criando uma relação de irmãs confidentes.

César, por sua vez, pouco tem algo de especial sobre ele, além do fato de ser muito jovem, simpático e bonito. Uma cena na qual Martina irrompe no quarto do rapaz fazendo um top less, e flagra o menino jogando videogame na cama mostra que nada mais é necessário na relação entre os dois além do tesão mútuo.

Dry Martina é, afinal, um filme cômico e que nos faz apaixonar pela protagonista. Martina é uma figura interessante de acompanhar, na tela, por todo o percurso do longa. O argumento do plot – o de que ela é uma mulher seca e decadente – não se confirma com força, uma vez que, como eu já disse, o que se desenvolve na tela é a personagem intensa que vai se revelar, conforme sua vida se entrelaça com a de Fran, sensível. Em entrevista ao Clarín (https://www.clarin.com/espectaculos/cine/che-sandoval-director-ama-protagonistas-antipaticos_0_rycbgBH2G.html), Sandoval afirma que “Mis personajes son bien insolentes, no temen molestar a outro”. Seus filmes anteriores – Te creís la más linda (pero erís la más puta) (2009) e Soy mucho mejor que voh (2013) – também tinham em seus protagonistas, além da insolência, uma questão sexual envolvida, assim com Martina.

Porém, neste novo longa, a personagem feminina talvez exija um pouco mais de atenção para não a levarmos a extremos (ou é sexualmente liberada ou é frígida; ou é amorosamente sensível ou é uma devoradora), que são afinal comuns na visão masculina. Isso não é nenhuma novidade, já que, segundo a psicanalista Luce Irigaray, temos um problema à medida em que não há no próprio discurso, que é criação dos homens, meios de representar as mulheres. Martina parece ser muito mais do que Sandoval parece perceber – e isso nos oferece a atriz Antonella Costa. Como espectadoras e espectadores, uma maneira como poderíamos ver Dry Martina é tirar um pouco com um olhar mais atento e menos machista à figura da personagem-título.

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