Cabeças Falantes (2017), de Natasha Rodrigues. por Mona Perlingeiro

O som dos tambores anuncia a chegada de um novo aluno à universidade pública. Ele observa aqueles que estão, como ele, iniciando uma nova etapa da vida, contudo, não consegue ficar indiferente ao abismo que os separam. Assim começa o curta de Natasha Rodrigues, que sem rodeios busca revelar as possíveis interpretações sobre o título da obra “Cabeças Falantes”.

O protagonista que se vê no primeiro dia da universidade é negro, e as questões que o atravessam desde o primeiro momento que ele chega neste novo território passam por sua cabeça, mas também pelo pensamento dos corpos brancos que estranham sua presença naquele espaço. Essa interpretação vai se confirmando ao longo da obra em que cenas ficcionais são intercaladas com depoimentos de jovens universitários negros que explicam as sensações que tiveram – e têm – dentro da UNICAMP, uma das maiores universidades do Brasil. A pergunta que ronda todos as reflexões colocadas no curta é: de onde vem essa sensação de não pertencimento? Paulatinamente, possíveis respostas vão surgindo ao conectar um depoimento ao outro, e destacar o papel importante do recorte racial dentro de espaços acadêmicos que não são sensíveis à estrutura escravocrata construída em todos os aspectos na sociedade brasileira.

Em uma das cenas ficcionais, o aluno novamente “escuta” comentários sobre sua aparência, com destaque para o cabelo – neste momento, é interessante compreender toda a problemática que envolve a subjetividade do racismo. Muitos jovens negros que atualmente discutem sobre ancestralidade afro-brasileira e concepção de padrões de beleza, em algum momento da vida, recusaram-se a aceitar a própria aparência, alisando ou raspando totalmente o cabelo, em uma tentativa de negação de identidade. Isso porque existe uma demanda externa de pessoas que se incomodam com as características do indivíduo negro, o que se confirma com as vozes que continuam a ecoar falando sobre a fisionomia do protagonista. O olhar da aluna branca que passa por ele não mente: mais uma vez há um desconforto com sua presença. Devo comentar o fato de não haver incômodo com a presença negra em posições subalternas, esse sentimento é realçado quando as posições se equiparam.

Os depoimentos seguintes colocam em pauta o sentimento de obrigação de se destacar de maneira mais evidente como estudante capacitado e merecedor do lugar que ocupa enquanto negro, gerando sentimentos múltiplos, como se confirma através das declarações dos entrevistados, isto significa que não é possível para ele ser um aluno mediano sem ser cobrado ou ser desafiado por isso. A desconfiança sobre a capacidade intelectual do negro é real e vem de todos os lados, desde colegas até professores. Quem consegue transpor o peso da cobrança sem uma experiência emocional desagradável?

A sensação é de que o corpo negro não é bem-vindo, tampouco sua produção acadêmica; produção esta que é sempre questionada, seja por uma ideia de incapacidade ou por falta de estímulos. Nas vozes que podemos ouvir em uma das cenas ficcionais em que o estudante confronta a própria produção, – depois de passar os olhos nas referências de cientistas, psicanalistas, filósofos, escritores e figuras públicas negras como podemos identificar nas imagens de Toni Morrison, Carl Hart, Neil deGrasse Tyson, Whoopi Goldberg, Angela Davis, Malcolm X, Panteras Negras, Emory Douglas, etc. -, essa sensação fica ainda mais evidente, pois as referências são poucas quando comparadas ao número de figuras brancas que dominam o universo acadêmico. Não por falta de produção de conhecimento de pessoas negras, mas muito mais pelo apagamento que existe da construção científica que é feito por pensadores negros, que muitas vezes são traduzidos como produtores de sabedoria popular desvinculada de uma produção científica, maneira esta que a hegemonia universitária branca encontrou para direcionar esses conhecimentos para núcleos específicos, que normalmente não são inseridos em um saber essencial para a construção do pensamento.

O que é lugar comum para muitos jovens brancos – que não enfrentam obstáculo étnico-racial para ingressar em um curso superior na universidade pública -, pode causar estranhamento a esses mesmos jovens que constatam o próprio desconhecimento sobre questões raciais ao ouvir os relatos dos jovens negros que, de forma bastante sensível e íntima, revelam as durezas que são confrontadas por eles desde o momento da matrícula até a conclusão do curso, realidade esta que possivelmente não atravessa a vivência de universitários brancos. Surge daí a necessidade de compreender o sentido do lugar de fala, pois embora ambos possam conviver no mesmo espaço, não necessariamente isso se dá de forma natural e simples para este grupo de indivíduos que historicamente não tiveram acesso à educação superior.

Este trabalho de 2017 encontra em seu contexto sócio político uma novidade no que diz respeito ao percentual de negros no nível superior, onde o número de alunos (pretos e pardos) entre 18 e 24 anos quase dobrou entre 2005 (5,5%) e 2015 (12,8%), segundo o Instituto Brasileiro de Estatística (IBGE). As políticas afirmativas têm relação direta com o aumento desse número, mas ainda é um avanço tímido quando comparado ao número de alunos brancos que conseguem chegar ao ensino superior no Brasil, estes ainda são mais da metade dos jovens que acessam a universidade.

Contudo, as declarações finais do curta mostram caminhos indispensáveis para a construção de um espaço mais diverso dentro da academia, não só com referências intelectuais presentes em textos obrigatórios, mas também dentro de movimentos específicos que tiram alunos negros de um sentimento de marginalização. Como o depoimento de Carolina destaca, a respeito do quão imprescindível foi a fundação de um núcleo de consciência negra na UNICAMP – uma vez que não é só sobre passar no vestibular, mas principalmente sobre a permanência -, é preciso haver reconhecimento e noção de pertencimento desses novos alunos, ou sempre haverá o ruído da repulsa.

Na sequência contemplamos a última cena ficcional do curta, onde o personagem – com uma feição mais serena -, olha ao redor e revela seu diploma para o espectador. Um ciclo foi concluído, mas não só isso: ele também observa pessoas negras como ele no território universitário. Os tambores o conduzem novamente para, quem sabe, uma outra história.

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