Aurora (2018), de Anaís Delgado. por Sérgio César Júnior

Viver nem sempre é fácil, porém, mais difícil do que estarmos vivos ou de sobrevivermos aos desafios da vida é tentarmos entender nossos ritos de passagem. Nossos passos seguem um fluxo contínuo, estrito e indiscriminado a qualquer pessoa. Mesmo que não estejamos preparados para trilhar um percurso, ainda assim devemos segui-lo de forma inadiável. As manifestações da natureza por meio de suas leis e do tempo cronometrado estão em movimentos draconianos. Somos obrigados a imprimir em nossos passos uma densa energia para que possamos atender nossas necessidades de cumprir dentro desse prazo rigoroso, cada uma de nossas etapas existenciais. Uma força maior, a qual não identificamos nos faz mergulhar nas profundezas líquidas do submerso universo da nossa própria essência desconhecida. Até nos descobrirmos como seres humanos conscientes e emergirmos à superfície em busca da luz, ou de algo que possa nos trazer a iluminação que nos orienta a prosseguir no meio real. Eis aí a Aurora (2018), de Anaís Delgado.

Aurora é um curta-metragem concebido na estética da dualidade e das incertezas. O filme foi montado a partir de um jogo de imagens técnicas em primeiríssimos planos recortando detalhadamente as partes corporais da protagonista. Evidenciando o processo de transformação física e psicológica da personagem que está vivenciando uma fase de transição entre a infância e a puberdade. A maior parte dos trechos são feitos de planos breves e alguns com fundo escuro. O primeiro dos planos apresenta a logomarca do INCINE, a instituição de ensino superior de cinema do Equador onde o filme foi originado. Nessa logomarca há uma representação humorada, estilizada e enquadrando um conflito maniqueísta entre uma figura angelical masculina totalmente pintada de branco, no lado esquerdo, contra uma figura diabólica feminina totalmente pintada de preto, no lado direito. Ambas as figuras estão sobre um palco branco com um facho de luz no meio e ao fundo há uma parede dividida entre as cores preta (à esquerda) e vermelha (à direita). Apesar de ser um mero símbolo da escola de cinema, porém essa imagem pode gerar um puncto ao espectador, pois reforça a ideia dos contrastes na experiência humana e das superações dos desafios impostos à personagem que está contida na diegese fílmica de Anaís Delgado.

Em plano seguinte escuro ouvimos um som diegético de ruídos das batidas de palmas de mãos e balbucios infantis. Imediatamente, em plano médio conjunto vemos um grupo de meninas pré-adolescentes trajando uniformemente maiôs vermelhos e tocas brancas. Em pares, as garotas brincam o jogo de bate mão coordenando movimentos rápidos repetidos sistematicamente. De repente ouvimos a voz-off do professor de natação dizendo “ticos não corram”. Essa última frase é o mote para o raccord do plano seguinte, o de apresentação do filme. Novamente outro plano escuro, na parte inferior e central desse plano observamos o irromper gradual de um suave facho de luz desfazendo uma situação de breu no ambiente aquático, a iluminar o título do filme (AURORA) que aparece grafado discretamente em caixa-alta com cor fria, monocromática e tom pastel. Na parte superior do plano vai sendo derramada uma mancha vermelha de sangue concentrada, se diluindo em direção as profundezas.

Após os planos iniciais é mostrado o único plano inteiro conjunto do filme. Vemos no centro do plano, a protagonista enquadrada em pé trajando maiô vermelho e usando uma toca azul que cobre a região capilar e por total as suas orelhas, próxima à borda da piscina na direção da raia central. A personagem voluntariamente está isolada das suas outras colegas (com tocas brancas), as quais, animadamente conversam entre si e estão divididas em dois grupos distintos que ocupam as duas extremidades do quadro. Frente às nadadoras, alguns meninos passam apressadamente. Estática, a protagonista abraça o seu ventre e olha para o chão esperando iniciar a aula de natação. Sem cerimônia e sem tratamento íntimo com as alunas, o professor chega ao recinto ordenando as meninas para que formem uma fila única na raia central. O professor automaticamente chama uma aluna por vez e, ao invés de pronunciar o nome pessoal de cada uma, o instrutor as trata por “seguinte”. De modo sincronizado vai ditando passo a passo os comandos de mergulho.

A fila vai se movimentando, consequentemente, a sensação de desconforto da garota vai aumentando. Em uma sequência de primeiríssimos planos, o mal-estar é demonstrado na sua expressão facial. Percebendo que sua vez de mergulhar está próxima, a protagonista no limite de seu incômodo sai da fila em direção à parede de fundo, onde para e observa escorrer da sua região pélvica em sentido a sua coxa direita, uma delgada e discreta linha de sangue. Desesperada corre em direção ao vestiário e acidentalmente seu corpo se choca com o de um menino que corre em rumo contrário. Amedrontada com seus sinais somáticos, a personagem foi involuntariamente arremessada à escuridão subaquática no seu rito de passagem. Começa a dolorosa sequência de transformações anatômicas compostas por planos duplos e curtos montados em slow motion com imagens simultâneas, pouco nítidas dos pés, mãos, ventre, boca, olhos, seios e o rosto. Emitindo íntimos gemidos angustiantes e respirando de modo ofegante, os quais, o espectador terá a impressão de que esses sons são inaudíveis na superfície e só podem ser ouvidos por ela mesma. Consciente do fim do seu processo de amadurecimento, a personagem volta a superfície aquática, com os cabelos soltos e parte das orelhas descobertas, ainda ofegante e assustada.

Com sensibilidade, Anaís Delgado refletiu sobre questões associadas ao desafio de se tornar mulher, comuns a qualquer indivíduo do gênero feminino não importando sua classe social, ou seu lugar de origem. Mesmo nos dias atuais, tratar de assuntos sobre as transformações do corpo, menstruação e assédio masculino ainda são temas tabus nas nossas sociedades latino-americanas. Por isso, quando uma menina está passando para a fase da puberdade, a situação parece ser assustadora. Pois além dela não receber nenhum tipo de esclarecimento por parte de familiares, instituições de ensino e serviços de saúde, também não recebe apoio devido nem mesmo de seus pais. Dessa forma vivemos constantemente sob as vozes autoritárias masculinas, cujas as únicas preocupações estão em observar e manter sistematicamente a conformidade do fluxo social. No entanto a protagonista se sentiu mais uma dentro do fluxo da vida a enfrentar a si mesma e se descobrir. Cumprir o trajeto em sentido à linha inadiável das mudanças, seguir e entender os ritos de passagem a partir do movimento de submersão em nosso subjetivo universo subaquático e emergir diante da Aurora.

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