Zócalo, por Gabriela Justine e Pedro Bertolini

Zócalo é o nome da principal praça da Cidade do México, espaço de múltiplas interações sociais e culturais ao longo da história. É um importante marco da complexa formação do México e sua assimilação entre o tradicional e o novo. Antigo centro político e religioso de Tenochitlan, capital do império Azteca; atual centro político e religioso (desde a colonização espanhola) do país contemporâneo, onde se localiza a Catedral Metropolitana e as sedes do poder executivo Federal e local.

Neste documentário, os diretores Beto Brant e Carol Quintanilha, acompanham o neólogo Felipe Ehrenberg (1943-2017), de volta ao país após 15 anos, convidado a dirigir uma grande instalação feita na praça como oferenda em comemoração ao Día de Muertos, tradicional festa mexicana.

Durante o processo de direção da grande instalação localizada em um local tão significativo quanto o Zócalo, salta aos nossos olhos a grande diversidade sociocultural do povo mexicano, assim como sua complexa estrutura política.

Seus objetivos tratam justamente de contemplar esse sincretismo latente, representado pelo local escolhido para sediar a instalação, quanto pelo significado do Día de Muertos para o povo mexicano (reconhecida como patrimônio imaterial da humanidade pela UNESCO), que concilia tradições católicas dos espanhóis colonizadores, junto a antigas tradições indígenas extremamente significativas para o seu povo.

Todo esse amalgama que representa a sociedade mexicana faz-se presente no trabalho de Ehrenberg, junto a seu ativismo político que marcou durante toda sua vida, ao contemplar diversos povos tradicionais e seus deuses e culturas. Além disso, as instalações homenageiam diretamente os mortos do grande terremoto que atingiu o México no dia 19 de Setembro de 1985, fato que remete novamente ao artista que à época participou da reconstrução do bairro muito atingido pelo sismo.

Ehremberg explica que se trata de uma instalação em formato circular dividida em cinco módulos e sete etapas, assemelhando a uma pirâmide, com um arco de flores e quatro grandes tzomplantlis com caveiras pintadas em branco e preto para dar as boas vindas as almas dos mortos.

A instalação também homenageia, com um altar, a memória dos 43 normalistas de Ayotzinapa, que desapareceram em 26 de setembro de 2014, após serem interceptados pela polícia. Após apresentar uma breve contextualização sobre a sua instalação, Ehrenberg reforça o papel social e político presente em sua instalação, em que os crânios representam não só aqueles que morreram no terremoto, mas todos aqueles que desapareceram, ou que foram vítimas de violência de Estado, ainda mais em um local tão significativo que concentra esse poder institucional. As proporções monumentais de sua instalação têm como propósito que estas questões não passem despercebidas e que sejam denunciadas, e jamais esquecidas, pela população.

Zócalo, destaca-se pela linguagem documental, que nos aproxima constantemente das inquietações e percalços que permeiam a montagem da instalação, apresentando os conflitos por ele representado minuciosamente em detalhes que compõe o todo. Sendo assim, faz da tradicional festa do Día de Muertos, uma celebração, mas reforçando uma postura política contra aqueles que sofreram algum tipo de violência por parte do Estado.