Wik, por Carla Daniela Rabelo Rodrigues e Carlos Fernando Elías Llanos

O filme WIK é o primeiro longa-metragem de Rodrigo Moreno del Valle e propõe uma narrativa na qual três amigos de classe média alta buscam algo para fazer num verão entediante na capital peruana. A cidade de Lima é representada em suas limitações e também potencialidades, mas tudo numa configuração estética de tédio.

Por meio de atores não convencionais ao cinema peruano, o enredo apresenta Sandra, Andrés e Zapa, numa atuação cativante e próxima à livre improvisação, que vivem um momento típico dos jovens após conclusão dos estudos fundamentais e têm que pensar numa carreira universitária e profissional numa cidade aparentemente com poucas alternativas. O campo profissional na capital tem predominância de dois modelos: o dos empregos desinteressantes e repetitivos no melhor estilo preconizado pelo “sucesso” do mundo da gestão de empresas, ou dos trabalhos informais mais próximos do subemprego. A alternativa do filme é apresentar esse momento no qual a suposta ausência de possibilidades e a imaturidade se convertem em busca por respiros, espaços de vazão e novidades. Por isso, a contemplação dos espaços vazios, a bebida e o cigarro são as alternativas para parar o tempo (corrido e implacável) e pensar em potenciais ocupações para passar um verão com menos auto-cobranças.

A aposta de WIK (week) é a intimidade. É mostrar uma geração, jovens na cidade de Lima por meio de bairros (Lince, Magdalena, Jesús María e Centro) menos explorados midiaticamente, mas que são parte da vivência de muitos limenhos de classe média. Essa escolha contrapõe à lógica de buscar fora do país as alternativas para questões como emprego e formação. Durante muito tempo os Estados Unidos sempre foi o país de escolha para qualquer peruano, o filme de algum modo fala disso quando mantém os personagens “em casa” se defrontando com suas angústias, auto-conhecimento e apatia ante uma cidade repleta de possibilidades a explorar.

Lima é também apresentada pelas gírias típicas (muito específicas para o entendimento estrangeiro), e por meio de planos gerais durante uma semana, de segunda-feira (agitada) a domingo (entediante), com todos os dias absorvidos sempre de um só modo: “todos los días parecen domingo”. Os personagens exploram dias e noites nos espaços públicos, nos quais os dias são opacos e plangentes e as noites são coloridas pelas luzes de neón dos letreiros e painéis dos cassinos, dos chifas (restaurantes de comida chinesa) e das lojas, também pelas festas caribenhas e pela indústria do filme pornô amador. É importante destacar ainda sobre o filme que as relações são construídas pela ótica de limenhos, o que não necessariamente se pode generalizar a todo Peru porque, por exemplo, a serra peruana (Cusco, Cajamarca, etc) possui outro modo de ver a vida e de construção das relações sociais. Mas alguns conflitos internos são inerentes a muitos jovens do país, e aí reside a possibilidade de identificação com os micro-conflitos do filme, tanto no país quanto fora dele (Brasil, por exemplo).

WIK tensiona ainda um fora de campo, expressado por elementos cênicos e locações (elementos do quarto de casal, por exemplo), que demonstra a ausência de adultos no no qual se esboça a carência das relações familiares e caracterização da vida adulta como infeliz, materializada apenas pela atriz Norma Martínez que aparece como reclamona e desagradável.

A trilha sonora oscila entre o que os personagens escolhem a escutar e o que são forçados a escutar da cidade. Está composta por sons caóticos (buzinas, motores, sons de rádio) representantes do universo psicológico e da busca por algo a fazer. A específica trilha musical foi escolhida por meio de músicos representantes da inquietação cultural de Lima, as letras e as sonoridades refletem isso. Escolhas importantes para apresentar ao mundo essa cena musical independente limenha, assim como o filme também representa esse momento da cidade. Outros temas musicais trazem a apatia, a crise existencial e o medo das relações humanas. A potente e guitarrística Lorraine, por exemplo, representa talvez uma rejeição ao famoso happy end. A música é de Rafo Raez que comanda boa parte das escolhas musicais do filme e é um famoso representante da cena musical indie peruana dos anos 90.

A produção de WIK levou 3 anos no total, entre escrita do roteiro e pós-produção. Uma produção independente que passou por várias dificuldades próprias de uma escolha por apresentar novas histórias e estilos narrativos. Conseguiu ser selecionada em dois editais da Dirección del Audiovisual, la Fonografía y los Nuevos Medios (DAFO) del Ministerio de Cultura del Perú, o de pós-produção e o de distribuição que viabilizaram a finalização e circulação do filme. Com isso, foi possível a submissão ao BAFICI 2016 (Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires) que pela primeira vez abriu uma concorrência entre filmes independentes latino-americanos, um claro reconhecimento da produção experimental contemporânea da América Latina, com destaque inclusive aos países andinos (Peru, Bolívia e Equador) que têm chamado a atenção de festivais por todo o mundo.

Este filme evidencia ainda um problema atual do cinema peruano independente e sua dificuldade de viabilização. Os filmes comerciais estadunidenses predominam por conta do tratado de livre comércio e assim os modelos narrativos são cópias dos famosos blockbusters, distanciados dos referenciais locais ou de experimentações propositivas. O espectador peruano, por sua vez, é acostumado e enclausurado a essa narrativa e, portanto, não opta por ver um outro tipo de cinema. As políticas culturais, assim como as políticas cinematográficas, ainda merecem oxigenação e um cuidado maior com a produção local bem como com elementos legais mais protecionistas diante da voracidade das majors e do gigante mercado estadunidense. Nesse sentido, afirmamos que Wik representa a descentralização de filmes blockbusters presentes em Lima, representa a possibilidade de se pensar efetivamente numa política eficaz ao cinema peruano (limenho e regional) com novas propostas estéticas e narrativas. Filmes propositivos como WIK que concorrem aos recursos públicos deveriam ser prioridade em prol da evidência da diversidade cultural peruana.