Viejo Calavera, por Daniela Gillone

Filmado com longos planos fixos e sequências subjetivas que simulam o movimento de passos dados na mina de Huanuni (Bolívia), Viejo Calavera, de Kiro Russo, propõe encontros com as realidades sombrias do jovem Elder Mamani e sua família e do coletivo masculino que trabalha nos socavões. Antes de a câmera adentrar no labiríntico subterrâneo escuro, pelo vão de um corredor, que dá acesso a uma rua, o protagonista parece se refugiar de uma perseguição. Em um plano seguinte, esse personagem se encontra em uma discoteca, de onde sairá na mesma condição anterior, correndo de quem quer pegá-lo, por sempre cometer infrações.

Das ruas da cidade transita-se às imagens noturnas no campo. Ouve-se um lamento, em quechua e espanhol, da anciã que chora pela morte do filho. Descobre-se então que o pai de Elder morreu. A partir desse acontecimento, o espectador acompanha o protagonista em sua nova realidade ao lado da avó e do padrinho que o conduz ao trabalho na mina. Por transgredir e não se adequar a condicionamentos sociais, o que fica evidente logo na cena inicial, o jovem não corresponde à demanda da mineração.

A trama encaminha Elder à recusa do ofício de minerador. Insatisfeito, o personagem passa a vagar embriagado pela mina. Cria-se um mistério em torno de suas andanças, que envolve crenças próprias às localidades bolivianas. O filme faz uma alusão ao mito das divindades que habitam as minas, a partir da manifestação sobrenatural chamada El tío, uma espécie de diabo que se sustém de sacrifícios, cigarros, bebidas alcoólicas e folhas de coca. Em cenas dentro e fora da mina, essa invenção venerada pelos mineradores bolivianos parece assumir a postura de um narrador, considerando a condução da câmera, que espreita o protagonista, sem dispensar o gozo por ver sua desorientação.

A história do jovem é um sintoma de uma geração confinada nos distritos mineros, que se destaca pela luta sindical por melhores condições trabalhistas. No cenário real das minas concentram-se as conhecidas doenças, mortes e tentativas de homicídio, decorridas de um ciclo de trabalho árduo. A partir dessa realidade, o filme ressignifica o universo do trabalho nos socavões de iluminação artificial para a discussão de temas como a alienação e o sentimento de despertencimento de um jovem que não se interessa pelo ofício.

A escuridão dos subterrâneos iluminados pelas lanternas dos mineradores corrobora com o conceito estético e político da produção mineradora, na crítica às condições insalubres de um ambiente com iluminação artificial, onde se desenvolve um trabalho alienante. O fato de o filme utilizar dessa iluminação restrita, com lâmpadas que limitam campos de visão dos trabalhadores, reforça a definição retórica do obscuro pela ausência de amplitude, devido ao foco de luz que se limita em circunferências. Com essas imagens e sons, cadenciados em precisos planos formalistas, é caracterizada a evolução da técnica, concomitante à apresentação das formas mais rudimentares de trabalho humano. Um significativo plano ilude suprimir a imagem de Elder por meio de uma sobreposição de imagens de maquinários que tomam conta da tela, em detrimento da vida dos personagens.

O paradoxo metafórico que se define pela estratificação do metal na terra que, por sua vez devora homens, formaliza-se nas imagens subterrâneas. As cenas diurnas confundem-se com as noturnas, não importando mais se é dia ou noite no interior da mina, e na obscuridade desta prevalece o sentido de ausência, em consonância com a própria morte do pai de Elder. Fora da mina há apenas a remota luz resplandecente que emoldura o espaço lúdico de uma casa de campo na qual os mineradores passam suas férias. Os homens na piscina de água cristalina, as canções militantes e as encenações de luta são respiros em meio a tanta aridez e escuridão.

Os contrastes de imagem reforçam a divisão da narrativa entre as relações das personagens com a morte, os confinamentos e os momentos de ruptura da realidade. Os percursos de Elder embriagado nos labirintos da mina, espaços prestes a serem detonados pela dinamite, são paralelos à trama do coletivo de mineradores e sua lúcida reivindicação por melhorias no trabalho. As imagens dos mineradores com folhas de coca em forma de bola na boca chamam atenção ao que deixa os diálogos desarticulados e quase incompreensíveis se não houvesse legendas. Mas mesmo dificultando a comunicação entre os trabalhadores, as plantas são fundamentais para o enfrentamento destes ao terrível trabalho nos túneis, constituindo instrumentos de resistência para a labuta, sobrevivência e militância.

Viejo Calavera se pauta na autenticidade da linguagem, dos hábitos e subjetividades do minerador de Huanuni. O luto, o imaginário das crenças, a resistente língua quechua nos lamentos, o trabalho insalubre dos mineradores são questões postas em um enquadramento ficcional que recorre a um coletivo que de fato faz parte deste universo. O sindicato local participa do filme e a presença dos trabalhadores enriquece a encenação, além de pontuar o pouco reconhecimento do homem minerador.