Tesoros, por Fernanda Sales Rocha

A sensibilidade de Tesoros (María Novaro, 2017) emerge de uma abordagem delicada sob os olhares curiosos de crianças diante da natureza e da diversidade cultural. Planos de papagaios, siris, palmeiras, brejos, peixes, tartarugas, e toda sorte de criaturinhas e paisagem silvestres da Barra de Potosí (localizada na Costa Grande no estado de Guerrero, México) não caem em “estereótipos tropicais”. Pelo contrário, existe um respeito, um zelo, na relação que o filme traça com o meio ambiente. Uma espécie de vila às margens do oceano Pacífico, a Barra de Potosí deve – segundo os créditos finais do longa – “ser protegida como área natural e estar sob o comando de seus habitantes”. De fato, a preocupação com a questão ambiental dá o tom geral ao filme que, no entanto, não incorre em um discurso eco panfletário.

A trama começa com a mudança de uma família à Potosí. Desde o início estamos próximos às crianças e, assim, nos identificamos com os irmãos Dylan, Andrea e Lucas, que enfrentarão desafios naturais de adaptação à nova cidade. Ademais, essas crianças se diferem da população local não apenas pela origem, mas pela cor de suas peles: são brancas. O tensionamento racial e cultural não ocorre necessariamente, uma vez que certo desconforto surge apenas em Andrea, a irmã mais velha, descontente pela mudança. As crianças da vila são demasiadamente receptivas e amizades logo são promovidas. Dessa forma, os pequenos se engajam em um desafio comum: encontrar o tesouro escondido por piratas nos arredores da Barra de Potosí. Segundo Novaro, seu filme foi feito para crianças, inspirado na observação dos seus netos e com o desejo de filmar um relato especialmente otimista para o público infanto-juvenil.

O longa mescla a narrativa mágica sobre um tesouro escondido por piratas na época das grandes navegações com uma abordagem realista da vila – dado o registro das peculiaridades do espaço, sua cultura e população, por meio de uma apresentação demorada das paisagens e no interesse pelo linguajar local mais as cantigas tradicionais. O olhar cativado pelo cotidiano de Potosí dá ao filme momentos delicados, como na cena em que vemos a relação entre a personagem Jacinta e um pequeno caranguejo ermitão que faz de uma tampa de garrafa a sua casa. Outro exemplo são as cenas de cantorias, comilança e festa ou a sequência da empenhada caça de caranguejos no brejo. Pelo modo como é filmada, podemos considerar a Barra do Potosí uma personagem.

A atuação é um dos méritos do longa-metragem que contribui para um aspecto mais “observacional” da narrativa. Todos os personagens possuem os mesmos nomes de seus interpretes. Andrea e Dylan são irmãos de verdade e também netos da diretora María Novaro, assim como a já citada Jacinta. Segundo Novaro, o trabalho de atuação se desenvolveu sem roteiro e ensaio. Os atores, especialmente as crianças, eram incitados ao improviso, de modo que foram capturadas reações genuinamente espontâneas. Esse método de trabalho garantiu grande autenticidade aos pequenos protagonistas.

O otimismo buscado por Novaro, contudo, contribui para uma certa ausência de conflito. Tudo é muito bom e muito belo: somos avisados sobre a poluição, mas não existe embate diante dela, e a busca pelo tesouro também não dispõe de suspenses já que todos os empecilhos são mínimos e transpostos com facilidade. A postura contemplativa diante das incríveis reações dos pequenos e da paisagem exuberante de Potosí afasta o filme de um olhar mais infantil. A narrativa é lenta. É provável que uma criança acostumada com a velocidade dos filmes de herói se entedie. O ritmo deficiente compromete a narrativa de caça ao tesouro e o longa torna-se mais a exposição dos costumes locais pela visão de um adulto do que uma aventura ou fantasia juvenil.

Nesse sentido, é relevante notar que Tesoros não foi colocado na mostra infantil (Latininhos) do 12º Festival de cinema latino-americano de São Paulo, ainda que, como já mencionado, o objetivo de Novaro tenha sido um relato otimista para crianças e suas famílias. Por outro lado, é fundamental não subestimarmos o público infantil ao pensar que este não se interessaria pela contemplação do tempo-espaço em Potosí, ainda que em um ritmo pouco usual para narrativas de aventura. De qualquer modo, os verdadeiros tesouros do filme de María Novaro estão na relação intima entre câmera, espaço e atores, a partir de um relato intimista sobre a infância, a Barra de Potosí e seus costumes.