O Invasor, por Vanderlei Henrique Mastropaulo

“Bem-vindo ao lado podre da vida”, diz Giba (Alexandre Borges) para Ivan (Marco Ricca), seu sócio em uma construtora bem sucedida em São Paulo. Ricos e ambiciosos, eles acabaram de voltar de uma noitada no prostíbulo que Giba mantém para “diversificar os negócios”. A razão da comemoração é o sucesso do arriscado plano colocado em prática horas antes: encomendar o assassinato de Estevão (George Freire), o terceiro sócio, que se opõe à assinatura de novos e ilícitos contratos que podem por em risco o futuro da empresa.

Para que Estevão não atrapalhe mais os negócios, Giba e Ivan contrataram Anísio (Paulo Miklos) para matá-lo sob a aparência de um assalto. Porém, para a surpresa dos empresários, após a execução do serviço, Anísio passa a circular pelo escritório da construtora e se mistura ao círculo social deles, ao qual, em tese, ele não deveria ter acesso. Para piorar o desconforto, Anísio se envolve com Marina (Mariana Ximenes), filha de Estevão, tornando-se o “invasor” que dá título a este filme eletrizante e um dos mais conhecidos do diretor Beto Brant.

Brant já havia lançado dois longas-metragens em que demonstrou sua afinidade com os códigos do thriller: Os matadores (1997), sobre assassinos de aluguel que atuam na fronteira entre Brasil e Paraguai, e Ação entre amigos (1998), sobre a vingança de um ex-guerrilheiro que, por acidente, reencontrou aquele que fora seu torturador em um cárcere clandestino da ditadura militar.

Mas em O invasor, Brant e equipe desenvolveram uma estratégia diferente. Baseando-se no romance homônimo de Marçal Aquino (que colaborou na elaboração do roteiro com Brant e o produtor Renato Ciasca), eles tinham como ideia realizar um filme de baixo orçamento e, para tanto, foi necessário mudar algumas exigências de produção. Isto que, a princípio, seria um problema, tornou-se um dos trunfos do filme, dando agilidade e o ritmo nervoso de muitas sequências. A solução encontrada foi recorrer a tomadas longas com bastante movimentação de câmera e de atores em cena, trazendo muita energia às imagens de alto contraste e captadas em Super 16 pelo fotógrafo Toca Seabra. Além disso, há marcante diferença entre as cores vibrantes e saturadas das cenas noturnas em boates e motéis e a aridez das cenas diurnas, cujas paisagens estéreis e acinzentadas revelam uma metrópole hostil, sufocante e de dimensões monstruosas. A trilha musical com sucessos de Sabotage & Instituto, Pavilhão 9 e Tolerância Zero traz ainda mais impacto ao resultado final.

A respeito das filmagens, Marco Ricca afirmou (em documentário de making of realizado na época) que certas cenas funcionaram quase como intervenções. A equipe chegava à locação, acertava os detalhes necessários e então era feita uma tomada longa, ao invés do padrão habitual de decupagem com muitos planos e pausas para preparação. Isto exigia um alto nível de concentração do elenco para utilizar todo o corpo em planos abertos. As interpretações do trio principal é um dos grandes destaques. Marco Ricca e Alexandre Borges já eram atores consagrados, mas a desenvoltura de Paulo Miklos (de longa carreira musical à frente dos Titãs) surpreendeu por se tratar de seu primeiro papel no cinema.

O invasor se tornou um dos marcos do cinema brasileiro pós-retomada. A trama tensa traduzida em uma estética singular e alucinante descortinava a hipocrisia de certas atividades financeiras de aparência regular que flertam com a corrupção ao sabor da ganância e da psicose silenciosas. Aos olhos torpes de Giba e Ivan, a criminalidade pode ser aceitável desde que se mantenha invisível e distante. Quando Anísio passa a assombrá-los, sua presença se torna indesejável não apenas pela lembrança da culpa que os três dividem, mas, principalmente, pela origem pobre e periférica do matador.

Por conta disso, O invasor carrega um forte senso de realismo e se mantém atual e desconfortável neste momento de evidente crise moral e política que o país atravessa. A participação de Sabotage (marcante, embora rápida) é mais um ponto de reflexão sobre a crueldade cotidiana a que estamos submetidos nas metrópoles. A asfixiante São Paulo vista na tela se torna ainda mais dura ao recordarmos a trágica morte do rapper, assassinado em janeiro de 2003, poucos meses após o lançamento do filme nas salas comerciais do Brasil.