No Vazio da Noite, por Sérgio César Júnior

Viver em São Paulo não é uma das tarefas mais fáceis para qualquer habitante do mundo, ou mesmo para o nativo desta cidade. No meio urbano paulistano, além do custo de vida ser um dos mais altos do planeta, também, esta megalópole nos permite conviver com todo o tipo de situação, desde as mais prazerosas e fascinantes até as mais entediantes e coléricas dentro do estilo de vida moderno e cosmopolita. Apesar de ser um local onde há uma grande circulação e fixação de pessoas, em São Paulo – ainda podemos ver a maior parte delas se sentindo solitárias, independentemente de compartilharem ou não, suas moradias com seus companheiros, familiares; parentes. Até mesmo um casal paulistano; com um tempo considerável de intimidade está correndo o risco de vivenciar um relacionamento afetivo ruidoso e insensato. Dessa forma, poeticamente encontramos essa estranheza estética dos ruídos visuais e sonoros da cidade paulistana em No Vazio da Noite, o filme do cineasta Cristiano Burlan.

O filme foi dividido em dez capítulos e as passagens de cada um deles são pontuadas por planos, com imagens fotográficas dos edifícios e logradouros da região central paulistana. Em cada fotografia é anunciado em caixa alta e garrafais o título capitular. A diegese trata do relacionamento tenso entre um jovem casal, um musicista e uma modelo, moradores de um apartamento no centro da cidade. Ambos não conseguem conduzir harmoniosamente a vida conjugal, pois sentem dificuldades para se comunicar um com o outro. Esses dois personagens, cujos nomes não sabemos estão conscientes de seus estados existenciais e passam a elaborar reflexões filosóficas e mantêm com outros personagens os diálogos socráticos sobre o vazio das relações afetivas. É interessante notarmos que, apesar em todos os personagens do filme aparentemente optarem pela solidão, justamente, por não poder contar com um companheiro na vida cotidiana, no fundo essas pessoas sentem receio de estar sozinhas e enfrentar suas próprias angústias e seus medos de si mesmas.

O filme começa sem qualquer aviso prévio. Porém não são apresentados os letreiros de abertura com os créditos da equipe de produção e elenco, nem mesmo há uma trilha sonora convencional para introduzir o espectador à trama. A abertura é seca e é feita com um plano conjunto de uma rua movimentada de uma cena noturna qualquer. Ouvimos os murmurinhos de pedestres e os ruídos dos automóveis e outros sons externos, que são abafados pela carroceria de um veículo automotivo (provavelmente a de um pequeno veículo utilitário). O ângulo de visão parece ser o de uma câmera instalada no para-choque do veículo mostrando uma calçada de guia rebaixada de um posto de combustível. Em seguida ouvimos o acionar do motor a diesel deste mesmo veículo, que após alguns segundos deixa o posto de combustível e percorre um trecho das ruas, até parar em frente ao semáforo e à faixa de pedestres. A partir deste plano inicial do filme já percebemos que o silêncio dos diálogos e os ruídos em volume reduzido serão os sinais tanto de incômodo na mente dos personagens quanto de desconforto para o espectador.

Imediatamente, em um jump cut surge a cena seguinte em plano geral de um amanhecer da Zona Central da cidade, na qual avistamos, em ângulo skyline, o mar de torres residenciais dessa megalópole brasileira. O ponto de vista da imagem é de uma janela de apartamento, protegida por uma tela fina aramada e translúcida, que nos impede de enxergarmos com precisão os detalhes da paisagem urbana. Essa tela significa a distância entre os seres humanos, que se isolam em seus apartamentos e evitam aproximar seus olhares da vida social. Essa visão nos traz a noção de quantos desses moradores nessa populosa cidade estão sob o espírito da solidão. O apartamento isola o ser humano até mesmo do contato com o vizinho mais próximo, ou mesmo com a pessoa com quem divide o apartamento. Aqui encontramos um dos muitos ruídos visuais de quem mora nos grandes centros urbanos do mundo.

Os efeitos estranhos e irritantes ao espectador provocados pela falta de nitidez visual se ratificam no plano médio conjunto, num ângulo normal de visão no ambiente interno do apartamento, onde vemos um jovem casal em contraluz no parapeito da janela. Um rapaz de estatura alta e barbudo está fumando um cigarro de cannabis ao lado esquerdo da janela e sua companheira de estatura mediana e cabelos longos está ao lado direito. No meio do casal, ao fundo em destaque na paisagem urbana está um edifício com a fachada pintada de vermelho escuro e com o cume de formação triangular ascendente. O diálogo entre o casal é inaudível para o espectador, pois na banda sonora ouvimos diversos ruídos misturados. Ouvimos um gotejar de torneira, serras elétricas, ferragens tocando o chão, o chiado da tentativa de sintonizar o dial de um aparelho de rádio e outras interferências sonoras que são sons comuns para a população urbana no dia a dia.

Se na cidade populosa, as pessoas não conseguem conviver de forma calorosa e próxima, a única coisa que podem fazer é buscar nos vícios o companheiro das horas solitárias. O cigarro (seja o de cannabis, seja o comum) é acendido e tragado durante os climas tensos entre os personagens. Na cena em que um outro jovem casal (esse casal é amigo do casal protagonista) está na varanda do apartamento discutindo a relação, a qual, desta vez, o teor da conversa é inteligível ao espectador, a jovem mulher saca um cigarro e o acende na frente do seu companheiro. Essa é uma das formas que a personagem encontrou de tentar se acalmar e se satisfazer ao mesmo tempo, já que não poderia obter isso do seu parceiro. Para um fumante, o cigarro é associado a um meio de subterfúgio ou para retomar o controle de uma situação problemática, ou então após o momento de ápice numa troca sexual. Nos diálogos que tinham com os seus companheiros nos dois casos, os personagens não tinham outra alternativa a não ser manter o controle sobre a situação.

No Vazio da Noite é um filme com o sotaque paulistano, ao mostrar a imensidão de moradias verticalizadas, que servem para isolar os habitantes dessa cidade, não apenas de outros habitantes, mas também de si mesmos. Podemos dizer que a palavra Noite do título é a que define o lado oculto das relações humanas e o Vazio pode nos dizer sobre como somos insensatos para nos relacionar afetivamente. As impressões que obtemos a partir do filme de Cristiano Burlan é que, como seres insatisfeitos, estamos buscando algo distante às cegas, sem saber que isto pode estar mais próximo e a todo tempo bem na nossa frente.