Cão Sem Dono, por Paola Louise Ferreira de Rezende

Na cena inicial noturna da diegese, a câmera percorre o quarto escuro de um apartamento, onde identificamos os corpos de um casal transando. Ambos estão em pé na varanda, em coito de posição de “cachorrinho”, as peles de seus corpos são suavemente refletidas pelas luzes das lâmpadas da iluminação da rua. É uma cena de sexo sem compromisso, porém com muita excitação entre duas pessoas desconhecidas. Alceu Valença, talvez dissesse que eles se “amam como dois animais”. Dessa varanda conseguimos ver, do alto, alguns pontos de luz que remetem aos postes de eletricidade das ruas da cidade ou janelas de outros apartamentos. É assim que Cão sem dono já logo se entrega: é um filme, entre outras coisas, sobre o corpo, isto é, tanto dos amantes quanto da cidade. O filme, dirigido por Beto Brant e Renato Ciasca, é uma adaptação do livro Até o dia que o cão morreu de Daniel Galena. Cão sem dono completa neste ano completa dez anos de estreia.

O rapaz, que vemos na primeira cena da varanda, é Ciro e a moça é Marcela. Ela é uma bela modelo que sonha em viajar pelo mundo, já o Ciro é recém-formado em Letras, por vezes trabalha como tradutor de russo e passa muito tempo dentro de seu apartamento que conta com poucos móveis, no seu quarto vemos apenas um colchão no chão, um abajur e uma estante com alguns livros. Ambos divergem nas opiniões sobre a forma de conduzirem suas vidas. Enquanto Marcela considera importante manter os sonhos e realizar seus projetos, Ciro prefere manter seu pensamento em uma perspectiva pessimista, quase que niilista. Ficamos a par de sua indiferença com as emoções quando no day-after da transa ele dá todos os indícios que não irá manter contato com a moça. É pela matéria, pelo físico, pelo corpo que Ciro vive. No primeiro momento é assim que se dá a relação dele com Marcela: sexo. Decorrente de muitos encontros sexuais entre os dois começa a nascer algum sentimento inesperado por ambos. Com um close bem aproveitado pelos diretores, Ciro até tenta fazer um poema para Marcela, porém os versos que saem é qualquer coisa como: “Marcela é gostosa”. Não há transcendência da matéria para ele, tudo é corporal.

Ciro é um jovem rapaz que sente dificuldades de enfrentar a vida com maturidade e assumir sua autonomia. De certa forma, ele passa por aquilo que definimos como crise existencial, ele não tem dono, assim como o cachorro que o acompanha por vezes até seu apartamento. O cachorro é o único amigo que Ciro tem. “Semelhantes atraem semelhantes”, diz um velho ditado. Por ainda não ter a maturidade exata que a vida nos exige em certos momentos, Ciro torna-se alcóolatra após Marcela lhe dizer que precisa ir embora para fazer um tratamento de câncer. Ela não lhe dá uma previsão de volta, muito menos de cura. Ora, o que faz Ciro começar a autodestruição de seu corpo com a bebida em exagero é o fato da doença que acomete o corpo de Marcela.

Após isto, vemos Ciro atravessar, literalmente, uma grande dor. Dentro de um ônibus vemos o rapaz de volta para a casa de seus pais, sentado em um banco ele vai de costas para o motorista, por vezes se perde na paisagem da cidade de Porto Alegre através do vidro. É a travessia do retorno. Seria o amor, além de corpo, igualmente uma travessia? Para Ciro, sim. Por vezes, e principalmente, a travessia de uma grande dor. Essa travessia nos deixa marcas, cicatrizes, tatuagens e nem ao menos percebemos. Por exemplo, o porteiro do prédio onde Ciro morava que aprendeu a fazer sorvete de pera com uma antiga namorada. Em certo diálogo diante de um imenso mar, o pai de Ciro assume que já esteve perdido com vícios, mas que “quando a gente percebe o eixo, parece que a vida ganha sentido”. Talvez esse seja o começo de uma abertura da personagem para entender sua posição atual diante dos problemas a serem enfrentados na vida. Ou seja, não só o Ciro ou a Marcela são corpos nestes filmes, como também é o apartamento, a cidade e o mar.

Sendo assim, Marcela foi uma travessia para Ciro e a doença dela uma travessia para si própria. Entretanto, certo dia, ao sepultar o seu animal de estimação, ele recebe uma ligação de Marcela que diz estar curada e quer que ele viaje com ela, é assim que o filme acaba. Ou talvez inicie outra travessia. Aliás, o cachorro é o principal elemento de travessia do filme, pois este só acaba quando o cachorro morre. A história entre Marcela e Ciro ainda pode continuar, não sabemos, porém o fim do corpo do cachorro foi aquele. De certa maneira, a dor de Ciro tem algo a ver com a finitude existencial da nossa matéria, Marcela poderia ter morrido, assim como o cão, mas ela sobrevive, pois ela é uma marca entre a juventude e a maturidade na trajetória do rapaz.

Em suma, a forma como a diegese de Cão Sem Dono foi conduzida por seus realizadores resultou num filme de poética não linear. O trabalho de câmera e expressão gestual dos atores evitou com que os diretores abusassem do uso de monólogos verborrágicos do protagonista. Assim permitindo ao espectador perceber mais os aspectos psicológicos, os sentimentos, medos e desejos de seus personagens apenas pelas suas ações corporais, ou pelos significados nos objetos de cena. Conforme já tratamos, a câmera está em grande parte do filme, enquadrando ou por inteiro, ou os detalhes dos corpos dos personagens. A título de exemplo, de cenas já comentadas, as quais mostram os corpos durante o sexo, corpo que se submete a um exame gástrico, um copo de café ou cerveja, quadros pendurados nas paredes solitárias, brancas e velhas de um apartamento ou a cidade que é travessia cotidiana de muitos de nós. Vale ressaltar, por último, que a ausência de trilha sonora no filme não é de todo desagrado, nos causa alguma inquietação sim, porém é logo preenchida pelas atuações que são bem naturais. E também que o excesso de fade in e fade out já nos prepara para o fim súbito do filme que pode acontecer a qualquer instante, assim como o amor e a dor.