Angelus Novus, por Daniela Gillone

Com liberdade de sobra, o cineasta baiano Edgard Navarro Filho (diretor de Eu Me Lembro e O Homem que Não Dormia) contracena com três outros personagens (interpretados por Daniel Santiago, performer e artista visual da antiga dupla Brusky & Santiago, de Recife, Chico César, cantor e compositor paraibano e Juliana Elting, atriz do grupo Oficina, de José Celso Martinez Corrêa) no filme Angelus Novus, de Duo Strangloscope, formado por Cláudia Cárdenas e Rafael Schilchting – o nome do duo é inspirado no ensaio do cineasta Rogério Sganzerla, cujo título, Strangloscope, uma aliteração da expressão inglesa “strange angle scope”, traduzido em português, quer dizer: do ângulo estranho.

O filme se pauta na experimentação, a partir das relações entre esses atores, com o propósito de quebrar a demarcação da mise en scène para formalizar o conceito de busca numa livre encenação. A proposta é de invenção de linguagem para ressignificar o tempo e espaço de ação das personagens, sem se limitar na reiterada lógica linear de se contar histórias que se enclausuram no imediatismo dos diálogos. Tal como os próprios diretores definem a produção, feita a partir do delírio, da mística e do devaneio para romper com a lógica de uma narratividade historicista e positivista: “o que se busca na aventura do experimentalismo cinematográfico é um tempo espaço imagem em que o Angelus Novus seja um chamado ao risco e à ruptura com a lógica linear da acachapante contação de histórias críveis. Pelo incrível!”.

As cenas iniciais apresentam o homem que vaga pelo campo. Por meio de uma sobreposição de planos se expressa um conceito de pensamento e de manifestação do transe. De forma que as sequências cadenciadas na montagem proponham a construção de um presente que parece interconectar-se a outras temporalidades para a personagem com identidade flutuante ou indecifrável prosseguir, enquanto a ouvimos em seu solilóquio, com a repetição de algumas falas desarticuladas: “gênio da morte; gênio do inferno”.  Embora a situação pareça indicar um devaneio, há também o propósito de caracterização desse homem em busca da profanação contrária à exploração social provocada pelo capitalismo, colocada num contexto retórico mais amplo de resistência às mudanças e imposições. Em significativos letreiros, que demarcam as transições de sequências, ficam esclarecidas as intenções do filme com propósito de ruptura com as determinações na vida real e no audiovisual.

Assistir a Angelus Novus pressupõe ter a experiência do ver no lugar possível do cinema. Criam-se lugares muito próprios para quem o assiste, na busca de romper com esquemas rígidos que imperam nas narrativas audiovisuais. Novos espaços surgem pelo errante vagar do homem em sua utopia de estar no tempo que ultrapasse a época das ordens estabelecidas e dos poderes institucionalizados. A ideia é sair da lógica da dominação em uma paisagem diversa na qual se projeta o vagar por vales, túneis e lagos da Serra Catarinense. Nessas locações surgem os encontros entre os dois homens que juntos passam a vagar. Há ainda o contato desses homens com a dama do lago, e com o homem da câmera em uma casa. Outra cena que surpreende é a interação do protagonista com o coletivo que participa da popular festa das tendas. O que faz uma quebra, por envolvê-lo em um acontecimento real, que define um engajamento no presente. Essa cena documental funciona como um corte à dinâmica anterior de filmagem, ao mesmo tempo em que afirma a experimentação total do filme. Todos esses lugares apresentados irradiam vistas que projetam subjetividades desejadas em tempos de opressão.

Não por acaso, a proposta dessa produção parte da análise de Walter Benjamin sobre o quadro “Angelus Novus”, de Paul Klee, para estruturar o seu conceito de resistência no e pelo audiovisual. No ensaio “Sobre o Conceito de História”, o filósofo descreve que o anjo parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. O autor compara, então, a imagem de olhos escancarados, boca dilatada e asas abertas com o possível aspecto do anjo da história. Por seu rosto estar dirigido para o passado, onde pode se ver uma cadeia de acontecimentos, o anjo, na descrição de Benjamin, vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele analisa, também, que o anjo gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar fragmentos, e sinaliza ainda um impedimento que surge por haver uma tempestade que sopra do paraíso e prende-se em suas asas de modo que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade prognosticada o impele para a experiência do futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto ruínas crescem até o céu.

A partir dessa análise exposta, o filósofo incorporou em seus escritos sobre o “anjo da história” uma visão do processo histórico como um digressivo ciclo de desespero. E o filme Angelus Novus parece transpor as condições de ruínas e de imobilidade do anjo de Klee, analisado por Benjamin, por vistas que oferecem liberdade ao personagem alegórico em seu vagar. São planos fixos e sequências que reinventam tempos, antepassados, e continuidades pela experiência do ver no contexto de cânions, montanhas, vegetações vigorosas e lagos paradisíaco. A sobrevivência dessas imagens elabora o conceito da produção como uma ode ao cinema de invenção e à resistência ao fascismo que ronda na realidade.