Querido Camilo_1

Querido Camilo, por Sérgio César Júnior

querido_1Ao assistirmos o documentário costarriquenho Querido Camilo (2007), dirigido por Daniel Ross Mix e Júlio Molina Montenegro somos tomados logo de início por uma dupla sensação paradoxal devido ao comportamento de Camilo Mejía: admiração e perplexidade. Admiração pela bravura do ex-mariner (Camilo Mejía) ao romper com as forças armadas estadunidense e denunciar na opinião pública as consequências trágicas na vida dos combatentes atrelados ao estressante sistema de guerra estadunidense. Perplexidade pela atitude voluntária em ingressar na United States Marines Corps (USMC). Na época em que se alistou, Camilo Mejía era um jovem ator e dramaturgo, envolvido com as artes cênicas em seu país, Costa Rica, onde não há exército, ou campanhas que incentivem alguém a ingressar na carreira militar.

Em grande parte do filme as cenas são pontuadas pela estética das imagens de vídeo dos noticiários televisivos. No primeiro plano conjunto do início do documentário temos uma dessas imagens de noticiário: um minarete visto de uma laje ou telhado e ao fundo uma densa fumaça preta cilíndrica indo em direção aos céus, com sons da sirene de alarme de bombardeio. Tiros de canhão, vidraças estilhaçadas, veículos em patrulha nas ruas da cidade com soldado apontando um fuzil e Camilo Mejía se entregando às autoridades policiais das forças armadas. Um dos diretores do filme, amigo de juventude do protagonista, lê em voz-over o conteúdo de uma de suas correspondências trocadas com Camilo. O diretor se recorda de quando Mejía entretia os colegas durante os intervalos dos ensaios teatrais com as histórias de horror sem saber que um dia protagonizaria uma delas na vida de combatente no Iraque.

Ainda em voz-over, o cineasta menciona uma frase citada por Mejía quando jovem, atribuída a Hermann Hesse: “El pájaro rompié el cascarón y el cascarón és el mundo. Quien quieras nacier tem que destruyer el mundo”. Podemos entender que a consciência de mundo desenvolvida por Mejía havia se expandido e não cabia no pequeno mundo formatado pelas missões beligerantes das forças armadas estadunidenses. Mejía já se tornara um pássaro adulto e precisava romper com esse alienante circuito do mundo da guerra. Sua militância pela paz e contra as campanhas beligerantes no mundo o fez alar na sua percepção da vida.

querido_2Ainda nos planos iniciais do filme, os diretores representaram o posicionamento íntegro do protagonista com a imagem de uma formação fito mórfica em meio a uma paisagem desabitada. Um dos planos que simbolizam a sua luta quase solitária contra o sistema alienante que alimenta a beligerância é um que enquadra uma árvore frondosa, solitária, em contraluz ao sol do final da tarde e enraizada no meio de um morro íngreme, próximo a uma estrada sinuosa com a curva acentuada. Essa árvore no terreno acidentado de morros e curvas, nos dá o indício das dificuldades que Mejía enfrentou, enfrenta e enfrentará numa sociedade, pois o plano cinematográfico parece estar em enquadramento torto. A voz-over de Câmilo lendo o conteúdo de sua própria carta respondendo ao diretor do filme, pontuando com a data de “22 de noviembre de 1995” é o ponto inicial de sua lucidez ao perceber que está sendo doutrinado para viver o “absurdo” da vida militar. Alguma coisa parecia estar desnivelada no horizonte do protagonista. No entanto, apesar dos obstáculos institucionais que teve de enfrentar, o que podemos identificar nesse sinal é que Mejía está radicando esta luta pela paz, como a árvore que está no plano, fixa, ramificada, em condições de florescer, espalhar frutos e sementes e expandir seus radicais dentro do solo.

querido_3Além dos diretores do documentário, prestam depoimentos os pais de Mejía, o assssor de imprensa da marinha estadunidense, alguns militantes pacifistas e um jovem nicaraguense, que sonha ingressar na marinha de guerra do País. Com exceção do jovem nicaraguense, todos os outros são entrevistados separadamente e sozinhos, principalmente, os pais de Mejía, que não residem em território estadunidense. A mãe de Mejía faz duras críticas ao sistema de guerra estadunidense e durante a entrevista ela define o animal símbolo do país, a águia, como o animal de rapina que está o tempo todo posicionando suas garras para tomar um cidadão de assalto e devorá-lo. A mãe de Camilo se refere ao sistema de servidão do exército estadunidense e do momento da prisão do filho, após ser considerado desertor e denunciar os horrores da guerra e do sistema militar do país norte-americano. Os únicos trechos do filme em que Camilo está junto de sua mãe, esposa e filha é durante a coletiva de imprensa em um suposto cemitério militar, a qual, anuncia que vai se entregar espontaneamente às autoridades militares, onde permanecerá sob custódia, por um período de um ano. Mejía faz de uma lápide funerária com a inscrição de “unknown civilians killed in war” (civis desconhecidos mortos em guerra) o seu púlpito para manifestar a sua indignação contra as consequências de uma guerra.

querido_4Mejía não é o único a se rebelar contra as forças armadas estadunidense, as quais verdadeiros algozes sobretudo dos imigrantes latinos. Ouvimos outras vozes militantes de movimentos sociais que se aliaram à causa da paz. Mejía é convidado por uma estação de rádio com mais algumas pessoas para trazer suas impressões críticas sobre a guerra. Um dos entrevistados do documentário, Carlos Arredondo teve o filho morto em combate e se tornou um dos militantes pela paz. Ele protesta contra a guerra nas ruas de Miami puxando um caixão com rodinhas em tamanho real, coberto com uma bandeira estadunidense e portando um quadro com o retrato do corpo de seu sendo velado. Mejía se tornou uma referência para Arredondo, em suas manifestações de indignação contra o Estado belicista, nos locais turísticos de Miami.  A militância de Mejía não se fez somente, ou nos meios de comunicação.

Em dada cena do longa-metragem, o ex-mariner encontra-se com o jovem nicaraguense que deseja ingressar nas forças armadas estadunidenses para relatar suas experiências e expor seu ponto de vista sobre as instituições de defesa do país. O intuito é desfazer algumas das ilusões que o jovem nicaraguense construiu em seu imaginário a respeito do exército.

Enfim, Camilo Mejía não se colocou como vítima do processo, nem como um arrependido pela experiência, porém, não deixou de ser combativo contra esse sistema que deplora a tranquilidade e retira a perspectiva das realizações de um ser humano. A imagem do “Querido Camilo” trabalhada no filme pelos documentaristas é do sujeito que suportou com dignidade todos os horrores de um conflito bélico e se manteve íntegro no seu estado psíquico. Camilo foi ousado em romper com esse mundo perfeito das instituições bélicas criado e mantido numa casca ilusória e vendido a ele como se fossem as asas que o dariam a sua autonomia existencial.

   

Comments

comments

Posted in Ensaios.