PARQUE LÊNIN, de Itziar Leemans e Carlos Mignon

Parque Lenin, por Alexsandro Silva

Obra inaugural de dois cineastas, Itzar Leemans (formada em História na França) e Carlos Mignon (formado em Comunicação Social no México), que se encontraram na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños (EICTV), Parque Lenin foi produzido inicialmente por financiamento coletivo da plataforma Ulule e depois com recursos mexicanos e franceses. O chamado crowndfunding vem crescendo no meio cultural e artístico como uma alternativa de produção frente a forte pressão do mercado em uniformizar a linguagem audiovisual e limitar os potenciais criativos dos criadores. Com esse entrecruzamento de fronteiras e experiências, Leemans e Mignon expõem um universo fílmico distinto do das demandas mercadológicas, apostando em um documentário com requintes de “cinema direto” (câmera “discreta” frente aos eventos registrados) e próximo à narrativa ficcional clássica, valendo-se de flashbacks.

parque_p2O filme retrata os dilemas sociais e familiares de três irmãos, Antoine, Yesuán e Karla, quatro anos após a morte da mãe. Enquanto os dois últimos vivem em Cuba, Antoine tenta ingressar no Conservatoire National Supérieur de Musique et de Dance de Paris para estudar canto lírico. Os contrastes materiais e climáticos entre Paris e Havana são ressaltados pela fotografia. Nas cenas gravadas na França, há um enquadramento que reitera uma maneira de representar a travessia de Antoine pelo país: a câmera o segue em falsos raccords, apresentando-o sempre solitário, o que ressalta seu isolamento frente aos irmãos dos quais era muito próximo, conforme os relatos que surgem ao longo da narrativa. O rigoroso inverno europeu, a frieza de algumas relações sociais e a ostensiva arquitetura urbana (como a do Conservatoire) compõem um ambiente no qual um cantor lírico humilde, negro e homossexual deve enfrentar para seguir seus planos artísticos e profissionais.

parque_p3Se o frio e a neve demarcam a solidão do irmão mais velho, na Ilha caribenha o calor e a proximidade com amigos e vizinhos colocam os irmãos Yesuán e Karla numa outra ordem social. A casa, localizada em La Palma (periferia de Havana), tem paredes e móveis desgastadas e é filmada sem recursos de iluminação extra, o que destaca a precariedade material. Isso não significa a condenação de um sistema econômico em detrimento de outro: ambas as representações fílmicas dos espaços delimitam duas atmosferas distintas que externalizam as dificuldades próprias de sobrevivência da família dispersa em cada lado do Atlântico.

Diante da perca da referência materna, cada um dos personagens demonstra como lidar com a dor do luto. Antoine substitui a mãe e passa a ser a referência familiar. É ele quem ajuda Karla a fazer exercícios físicos de balé clássico e leva os irmãos ao último passeio em família no Parque Lenin antes de viajar para a França. Yesuán e Karla redefinem os papéis familiares diante desse novo trauma: a segunda perda da autoridade em casa. O jovem vigia a irmã, porém mostra-se sem ânimo para seguir com qualquer projeto, decepcionado com a partida de Antoine e esperando seu regresso. Por sua vez, Karla vive encerrada na casa e é impedida de ter maior liberdade devido ao olhar vigilante de Yesuán. Em plena puberdade, a menina só pode receber algumas visitas, é incumbida de se dedicar às lições de casa e ainda se torna responsável pelas atividades do lar para substituir a falecida mãe.

parque_p5O trabalho de montagem no filme intercala lembranças da vida de Antoine em Cuba antes de viajar à Europa (imagens gravadas pelos diretores enquanto estudavam no EICTV e exibidas como flashbacks) com o registro das dificuldades dele em terras estrangeiras (fala bem o francês, mas não o suficiente considerando a carreira elitizada e exigente de cantor lírico). A montagem também articula as desventuras de Yesuán, ensimesmado com suas tatuagens e distrações, com o isolamento de Karla em suas atividades do lar, conversas e brincadeiras de menina. Yesuán e Karla têm momentos de distração, como o passeio na praia, em cenas que contêm as imagens caribenhas que abrem e fecham o filme, mescladas com planos que enfatizam a solidão de Antoine no exterior. Nostalgia, solidão e fraternidade são sentimentos díspares que permeiam as relações entre os irmãos.

Em notáveis sequências, há um interessante trabalho de entrecruzamento das óperas cantadas por Antoine com imagens dos irmãos na Ilha, como se o primeiro estivesse se comunicando com estes ou mesmo se recordando deles enquanto canta (de fato, ele não conversa por telefone com os demais). O trabalho de montagem invalida qualquer pretensão de “distanciamento” dos diretores frente à realidade registrada, como desejavam os cineastas adeptos do “cinema direto”. Mas tampouco significa uma intervenção deliberada da diretora e do diretor de modo a caracterizar o documentário como performático.

Parque Lenin, ao contrário do que possa parecer ao espectador, não faz referências políticas e ideológicas explícitas como poderíamos esperar diante do título. O parque foi o último lugar onde ocorreu o passeio dos três irmãos, momento agradável interrompido pelo anúncio da viagem de Antoine à França, conforme desabafo de Yesuán para a câmera. O espaço, localizado no sul de Havana, foi inaugurado em 1972 e possui espaços de lazer além de uma moderna escultura em homenagem a Vladimir Lênin (vemos o monumento após os letreiros finais). Sua menção no filme remete às recordações contraditórias que mesclam alegria e trauma, um topos que evoca sentimentos díspares. Tais emoções assumem outra conotação quando nos referimos às figuras de Lênin e da Revolução Cubana, que continuam a mobilizar as paixões políticas em nossos conturbados dias.

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