QUE HORAS ELA VOLTA?, de Anna Muylaert

O lugar das pessoas? A reestruturação do espaço em Que Horas Ela Volta?, por Marília Marie Goulart

Aclamado em festivais, o longa-metragem Que horas ela volta (Anna Muylaert, 2015) chamou a atenção ao projetar na tela do cinema as reminiscências da violenta relação entre casa grande e senzala. No filme, a empregada doméstica Val (Regina Casé) vive a esdrúxula posição de ser “quase da família” de Dona Bárbara (Camila Márdila), para quem trabalha a mais de uma década. Entre faxineira, cozinheira e lavadeira, Val talvez tenha se tornado de fato parte da família, ao menos para Fabinho (Michel Joelsas), filho da patroa que foi criado desde pequeno por Val. Sem a mesma sorte, sua filha Jéssica (Karine Teles) cresceu no nordeste, afastada da mãe.

Nesse núcleo doméstico, situado em uma mansão em bairro nobre da cidade de São Paulo, o longa constrói em tom naturalista, entre o drama, o humor e a ironia, contundente crítica sobre a absurda relação entre patroa e empregada que, como vemos no documentário Doméstica (Gabriel Mascaro, 2012), pode ser encontrada em diversos cantos do país.

1Para o espanto de todos, Jéssica viaja para São Paulo para participar da prova de seleção na mais concorrida universidade do país. Com sua chegada serão colocados em suspenso a naturalização de estranhos costumes, como o de comer na minúscula mesa da cozinha e de dormir em apertado quartinho em meio a uma mansão repleta de suítes. Alheia à dinâmica de ser declarada membro da família ao mesmo tempo em que é subjugada e desprezada, Jéssica encabeça ações relativamente sutis que provocam fissuras profundas na dinâmica familiar. O simples fato da jovem de mesmo sotaque de Val não estar ali para ser submissa ou para servir, resulta em explícito incômodo e estranheza – e também em patética paixão de Dr Carlos (Lourenço Mutarelli), o plácido marido de Dona Bárbara.

paragrafo-4A dinâmica estabelecida entre personagens e espaços é um dos aspectos mais fascinantes de Que horas ela volta? A relação tanto com os espaços da casa quanto com os da cidade terá papel central na trama. Mais: a própria construção dos espaços fílmicos é fundamental na elaboração da denúncia e da crítica lançadas. A chegada da jovem provoca uma reviravolta que é, também, visual, resultando em uma transformação sensível na decupagem do filme. No primeiro momento, antes de Jéssica, estamos presos juntos a Val nos espaços habitados pela personagem. Assim permanecemos na área de serviço, no soturno corredor e na cozinha, de onde assistimos, com Val, às refeições da família da patroa. Com a chegada de Jéssica teremos acesso ao que se passa da cozinha para lá; “segura demais de si”, a jovem não reconhece a demarcação espacial que todos parecem compreender tão bem. Essa transformação ocorre não apenas no espaço doméstico: com as reviravoltas da trama a própria cidade irá se abrir e ganhar expressão na tela.

paragrafo-5Não por acaso o filme se situa na zona sul de São Paulo, área que bem expressa o abismo social que ainda marca o país. Na região, diversas vizinhanças são compostas por mansões e prédios de luxo rodeados de gigantescas favelas. No contraste entre os espaços abastados e populares, o filme apresenta uma comunidade do Campo Limpo extremamente vívida. Divergindo da fria e vazia mansão e das ruas do Morumbi onde se situa, vemos no colorido Campo Limpo a expressão de uma comunidade tanto no espaço público onde os vizinhos se relacionam quanto no espaço doméstico onde os laços parecem mais firmes.

Ao optar por uma construção atenta aos espaços, o filme dá visualidade a uma dinâmica que, a despeito de sua força e violência, a rigor, não parece ser fisicamente demarcada. Tal como a casa dos patrões, a cidade também não é acessível aos empregados e trabalhadores, não por serem explicitamente proibidos de permanecerem em certos espaços, mas por serem extremamente constrangidos a não o fazer – basta lembrar do que acontece quando um grupo de jovens da periferia tenta dar uma volta pelas alamedas de um shopping center. Nosso apartheid não precisa de leis; violentamente ele segue se expressando através de inúmeros meios, do jurídico ao convívio social.

Que horas ela volta? lembra-nos do poder da ficção em denunciar situações, especialmente as mais veladas. Mesmo demarcada por um comportamento que se espera “natural” dos trabalhadores – e que portanto não precisaria ser explicitado – a fronteira que Jéssica ultrapassa é bastante visível, basta observar a planta das casas, estruturadas entre o lugar do trabalhador e o lugar do patrão. Levantando-se contra esse rígido esquema que é ao mesmo tempo visível e invisível, Jéssica se impõe contra a submissão em que é hereditariamente colocada pela família da patroa. Inconformada com o quartinho onde a mãe dorme, Jéssica ousa habitar os demais espaços, tanto domésticos quanto sociais. É bastante simbólica a carreira que a personagem quer seguir: arquitetura, profissão que, nos explica, é um instrumento de transformação social.

Relativamente sutil e extremamente contundente, a construção visual do filme escancara essa violência que se espelha do ambiente doméstico para a vida pública em uma sociedade cindida não mais entre casa grande e senzala, mas entre trabalhadores e empregados separados por um abismo de classe altamente estruturante e brutalmente excludentes. Na superfície, a convivência pode ter uma aparência pacífica – tal como descreveu Gilberto Freyre no livro Casa Grande e Senzala. Todavia, sabemos, a aparência não se sustenta. A libertação dos trabalhadores da submissão à casa grande passa, também, por uma conquista de espaços, tanto sociais quanto físicos.

paragrafo-9Marcado pelo entusiasmo de seu tempo, o filme exibe também as fissuras provocadas por políticas inclusivas que buscaram, de alguma forma, minimizar o fosso social. Não é de se estranhar que muitos espectadores se emocionaram ao se reconhecer na figura de Jéssica e mesmo na de Val. Nesse curto lapso de tempo entre o lançamento do filme e o presente, esperamos que, sem temer, mais Jéssicas possam questionar e transgredir o lugar onde são colocadas, reestruturando assim o espaço dessa segregadora cidade.

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