MARIA CANDELÁRIA, de Emilio Fernández

Maria Candelaria, por Vanderlei Henrique Mastropaulo

É bastante difícil se debruçar sobre María Candelaria sem ressaltar de imediato a força da atriz Dolores del Río. Como todo grande clássico, este filme reúne talentos diversos: o diretor Emilio Fernández, o roteiro do escritor Mauricio Magdaleno, a fotografia do mestre Gabriel Figueroa e a grande presença do ator Pedro Armendáriz. Mas é a imagem da atriz e sua postura em cena que prendem o espectador neste refinado melodrama da chamada época de ouro do cinema mexicano.

Dolores del Río acabava de retornar de uma longa temporada em Hollywood, onde permanecera de 1925 a 1942. A princípio, sua volta ao México foi recebida com o ceticismo de produtores e do público, afinal, ela havia deixado o país muito jovem para construir sua carreira nos EUA. Lá ela interpretou personagens construídas com certo “exotismo latino” (segundo o entender de Hollywood), situação que se manteve com a transição para a tecnologia sonora, quando a atriz lentamente começa a perder espaço.

Após um período sem bons papéis, ela decidiu voltar ao México no momento em que os produtores visavam a realização de filmes de maior acabamento artístico, devido ao esgotamento das fórmulas das comédias rancheras e de certos melodramas, repetidas à exaustão após o advento do cinema sonoro. Uma das formas de afirmação desse período foi a configuração de um star system local, no qual a presença de Dolores del Río era bem-vinda. Além disso, dois fatores contribuíram para o boom de produção que tornaria 1943 o grande ano dessa edad de oro: a criação do Banco Cinematográfico pelo governo mexicano, visando o desenvolvimento do setor, e o apoio tecnológico dos EUA aos produtores do México, consequência do alinhamento aos aliados no contexto da Segunda Guerra Mundial.

maria_candelariaCoube a Emilio Fernández o trabalho de moldar a persona de Dolores del Río, construída em Hollywood, para histórias de atmosfera mexicana. Fernández já contava com anos de experiência como ator e havia dirigido dois longas-metragens em 1942: La isla de la pasión e Soy puro mexicano. Foi justamente em 1943 que ele realizou dois filmes protagonizados por ela: Flor Silvestre e María Candelaria. Em ambos, construiu-se a personagem eternizada pela atriz na maioria de seus filmes: a mulher pobre e idealizada (muitas vezes, de origem indígena), de pureza transcendente, que, abnegada e convicta de seus valores, enfrenta adversidades e injustiças, pagando um alto preço por isso.

María Candelaria se passa na idílica região de Xochimilco, conhecida por seus canais e pelo lago de mesmo nome. Lá vive María Candelaria, índia órfã que carrega a mácula de ser filha de uma prostituta, e, por isso, torna-se vítima do desprezo e do ódio de toda a comunidade, com exceção do padre local e de seu noivo Lorenzo Rafael (interpretado por Pedro Armendáriz). María e Lorenzo juntam com sacrifício o dinheiro da venda de flores para um dia se casarem. Porém, a beleza e o ar virginal da jovem despertam o desejo do inescrupuloso dono do comércio local, que tenta de todas as formas atrapalhar os planos do casal. Além de respeitar os códigos vigentes do melodrama, o enredo dizia respeito, sobretudo, à afirmação do projeto de cinema nacionalista defendido por Fernández, em que a romantização do povo mexicano e de suas raízes indígenas resgatam um sentido de identidade popular no momento em que a modernização do país entrava em choque com diversas tradições.

Este conflito central é conduzido em ritmo candente por Fernández, tendo encontrado sua forma adequada na magnífica fotografia de Gabriel Figueroa, que nas locações reais de Xochimilco constrói com maestria planos gerais da paisagem, uma espécie de paraíso prestes a se perder. A plasticidade das imagens foi, sem dúvida, um dos fatores que trouxeram repercussão ao filme e ajudaram a criar, na mente do público internacional, uma imagem romântica do local. Ainda sobre a fotografia, chama a atenção o cuidado na construção dos primeiros planos de Dolores del Río, por meio de um recurso de luz difusa e, portanto, de baixo contraste sobre o rosto da atriz, com o propósito de ressaltar a pureza imaculada da personagem.

De tantas sequências inesquecíveis vale destacar o passeio noturno pelos canais de Xochimilco, que ressaltam a beleza da região e a vontade de Fernández em construir uma imagem romantizada de seu povo. Houve, na época, quem criticasse o diretor por tal idealização. María Candelaria conserva sua imagem virginal nesta cena de forte sensualidade e desejo reprimido, em que o casal troca juras de amor eterno.

Mesmo com tantos atributos, María Candelaria não foi um sucesso imediato. A recepção de público se dividiu. Emilio Fernández relata que a turbulenta sessão de estreia aconteceu sob vaias por parte dos presentes, enquanto outros pediam silêncio durante a projeção. O embaixador da então URSS, presente na ocasião, teve papel importante junto ao produtor Agustín J. Fink (dono do estúdio Mundial Films) na carreira internacional do filme, que conquistou prêmios nos festivais de Cannes (1946) e Locarno (1947). Impactado, o crítico francês Georges Sadoul afirmou na época que Dolores del Río havia se livrado da “máscara de Hollywood” ao interpretar em seu próprio idioma uma personagem sem “artifícios”.

Ao assumir, na maioria de seus filmes futuros, esse novo caráter de interpretação da mulher pobre, sofredora e sem desvios de caráter, Dolores del Río conquistou o devido respaldo de público e crítica no México. E a consagração do filme veio com o tempo, conforme a atriz era conduzida com rapidez à condição de mito, ao mesmo tempo em que Fernández se afirmava com um dos grandes cineastas do país. Hoje, María Candelaria figura entre as mais importantes obras da cinematografia mexicana, não apenas de seu período clássico, mas de todos os tempos.

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