los reyes del pueblo que no existe (2)

Los Reyes del Pueblo que No Existe, por Patrícia Vaz

No noroeste do México, um povoado com mais de 100 anos foi inundado pela construção da represa Picachos. Das 300 famílias que ali viviam, três ainda permanecem no local e agora são “Los Reyes del pueblo que no existe”. Em seu primeiro longa-metragem, a diretora Betzabé García nos leva ao antigo povoado de São Marcos, convocando um olhar mais demorado sobre as populações deslocadas, numa perspectiva poética, e não menos política, precisamente por tentar entender as complexidades espaciais e afetivas dos moradores, e suas resistências.

Na sequência inicial do documentário, um homem navega no que parece ser um lago, até que a cruz e o teto encoberto de uma antiga igreja são revelados na superfície da água. De dentro do barco, a câmera fixa nos guia por entre as ruínas da cidade mergulhadas em uma névoa fina, enquanto o barulho do motor se adensa pelo eco nas paredes das construções abandonadas: uma cidade-fantasma, ao que parece. A sensação urgente de abandono é quebrada pelo som de um machado, e em seguida, pela imagem de um homem a cortar madeira: ele é um dos últimos moradores de São Marcos.

los_reyes_1A diretora compõe a narrativa como uma poética de resistência centrando-se no cotidiano dos poucos moradores e animais que vivem ali, nos seus modos de sobrevivência, de reconstrução da cidade e de suas relações. Abrindo mão das entrevistas guiadas e com uma câmera insistentemente fixa (apenas na segunda metade do filme vemos movimentos discretos dos planos), a construção da narrativa evoca cenas que nos convidam a enxergar além das ruínas e do visível; a procurar o latente em meio à imobilidade da câmera e entre pequenos movimentos dos personagens; a identificar a resistência nos depoimentos dos moradores e nos silêncios subitamente quebrados ou na reverberação de instrumentos tocados por crianças em meio às ruínas.

Embora chamados de loucos pelos antigos moradores (agora alojados na Nova São Marcos), Miro e seus pais, Pani e Paulita, Yoya e Jaimito reconstroem suas vidas e seu entorno, onde vê-se – em um primeiro momento – apenas destruição. A fábrica de tortilhas do povoado continua a funcionar com seus dois proprietários e únicos funcionários: Paulita e Pani. Eles são responsáveis por manter a máquina que várias vezes irrompe o silêncio do povoado. O barulho é valorizado pelo desenho sonoro da narrativa que amplifica as sensações de quase abandono do lugar. Esse casal é o mesmo que mantém a igreja limpa e organizada, e teima em arrumar a praça e pavimento que logo serão encobertos pela água.

O estranhamento causado pelas ações desses personagens, que remete a nossa falta de entendimento sobre o porquê dessas resistências, pontua toda a narrativa. Em outro momento, é o riso frouxo de Jaime e sua esposa, enquanto dançam e namoram no terraço da casa, que causa um contraste marcante com os depoimentos entristecidos de quem não tem mais lugar, dos que viram seus vizinhos se mudarem, dos que convivem com fachadas caídas e deterioradas das casas belas e carregadas das histórias de outrora.

los_reyes_2O documentário revela por meio dos contrastes e estranhamentos a potência de vida e sua complexidade diante das tragédias e desalentos. Os moradores controem suas próprias dinâmicas em um local que pode ser lido também como um “entre-mundos” – a depender do nível da represa, ora fica seco, ora inundado – com seus poucos moradores a transitar entre as narrativas de vida e morte. Jaimito e Yoya, durante uma conversa à luz de velas sobre a solidão e o medo de estarem à mercê de alguns perigos, não deixam claro – por obra da montagem ou divagação dos personagens – se estão a falar de pessoas vivas ou mortas. Essa não clareza no diálogo integra uma construção narrativa que tenta transportar o telespectador a esse outro lugar cheio de mistérios e singularidades, onde, inclusive, os animais apresentam comportamentos incomuns: uma vaca que come tortilhas e se aproxima quando chamada por um assobio; um jumento que brinca de correr atrás de Pani ao seu comando (comportando-se como um cachorro); uma égua que dá pulos e diverte-se, ao que parece, com um banho de areia quando o dono retira suas amarras…

A produção do documentário durou cinco anos, e durante um deles Betzabé García e o diretor de fotografia Diego Tenorio moraram na comunidade. A intimidade da convivência reverbera na forma como os depoimentos aparecem na tela, como uma conversa, uma “plática” entre vizinhos. Uma certa admiração pelo lugar, permita-nos chamar assim, também está presente nos planos fixos demorados, como a nos lembrar de um tempo em que não era preciso correr, em que não se vivia a angústia de estar sempre atrasado ou com coisas demais por fazer.

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