las manos en la tierra (7)

Las Manos en la Tierra, por Alexsandro Silva

Ana Virginia Martínez é documentarista, pesquisadora, produtora e docente no Uruguai. Sua filmografia tem como principal temática a ditadura militar uruguaia, regime que durou entre 1973 e 1985 (Por estos ojos, co-direção com Gonzalo Arijón, 1998; Ácratas, 2000; Memorias de mujeres, 2005; Historias de militantes, 2008). Las manos en la tierra aborda os trabalhos de familiares, arqueólogos e antropólogos forenses na busca dos vestígios de desaparecidos políticos, vítimas dos militares no mencionado contexto autoritário. Tema pouco enfrentado na sociedade civil, a figura do desaparecido permanece como um fantasma a incomodar a consciência dos que buscam seus mortos e a de quem os esconde.

O documentário intercala entrevistas, fotografias e imagens televisivas de arquivo. Os comentários dos personagens expressam um desejo por justiça e verdade, uma vez que as Forças Armadas dificultam a possibilidade de localizar os corpos, criando uma espécie de “pacto de silêncio” difícil de romper, como afirma Mirtha Guianze. Os esforços registrados pela documentarista visam contornar esses problemas através da busca incessante por vestígios.

De maneira geral, a obra lida com diferentes níveis da memória. O primeiro nível é identificado com a memória militante, cujos personagens principais são o Estado, a sociedade civil e, principalmente, filhos e filhas de desaparecidos. Após o reconhecimento oficial do desaparecimento de mais de 200 pessoas, o governo mostra-se empenhado na missão de localizar os corpos, autorizando equipes de especialistas a investigarem em espaços das Forças Armadas. O presidente Tabaré Vazquez solicitou aos militares um informe final sobre os desaparecidos e, com o documento em mãos, deu início aos trabalhos pela busca das vítimas. O líder político aparece em algumas cenas do filme, mostrando o empenho do governo em dar solução ao caso. A fiscal penal Mirtha Guianze também se insere nessa representação do Estado no documentário.

las_manos_p4A sociedade civil faz-se presente no registro de manifestações públicas como a Marcha del silencio por la Verdad y Justicia (maio de 2005) e de ações civis como a campanha do argentino Juan Gelman em encontrar sua neta, o que evidencia a demanda social por justiça contra os crimes da ditadura. Não há no documentário a identificação das diferentes frações político-ideológicas presentes nessa querela, mas no enterro dos restos de Ubagesner Chaves Sosa vemos bandeiras do Partido Comunista uruguaio. Valentina Chaves, Javier Miranda e Macarena Gelman (neta de Juan Gelman, adotada no Uruguai) servem como representantes dos filhos dos desaparecidos, apresentando recordações que alimentam o engajamento na localização dos familiares. Os três são colocados como vozes autorizadas para falar dessa memória familiar e pública ao longo do documentário.

Um segundo nível da memória abordado em Las manos en la tierra trata do labor do Grupo de Investigación en Arqueología Forense, relacionado diretamente ao título da obra. O diretor do Grupo, José López Mazz, é a voz autorizada do coletivo e faz algumas intervenções. Na primeira delas, ressalta a importância da arqueologia forense na busca por verdade e justiça: “en una excavación hemos podido recuperar diferentes elementos que nos permiten reconstruir la vida de aquellos pueblos; eso lo hacemos los arqueólogos, tratar de escribir la historia de los que nadie vio, de los que nadie escuchó y pudo escribir a partir de primera fuente”. Um dos resultados apresentados pelo grupo é a identificação dos ossos de Ubagesner Chaves Sosa, pai de Valentina Chaves, o que legitima as pesquisas realizadas e animam os demais familiares e movimentos sociais na procura incessante pelos desaparecidos. Na narrativa, a terra é vista como um espaço de memória, que chamamos de oculta, a ser decifrado pelas máquinas de escavação e pelas mãos dos arqueólogos (mostradas em diferentes momentos). Vale ressaltar que neste nível incluem-se lugares de memória como a Chacra de Pando e os Batallóns de Infantería 13 e 14, onde foram realizadas escavações com resultados diversos.

las_manos_p6O terceiro nível de memória, internacionalista, corresponde ao trabalho do Equipo Argentino de Antropología Forense, tendo como voz autorizada a Mercedes Salado. A principal contribuição dessa equipe nas buscas em terras uruguaias foi a identificação dos restos do pai de Javier Miranda, Fernando Miranda. Salado traz importantes reflexões sobre a importância e o ineditismo na antropologia forense na Argentina, e menciona casos na Guatemala e Espanha. Há um relato sobre o caso espanhol (busca de desaparecidos da Guerra Civil de 1936-1939) que poderíamos trazer ao contexto brasileiro (ditadura militar e o caso Amarildo) e a tantos outros (como os 43 estudantes no México): “Las heridas jamás se van a cerrar […] Lo que se puede cerrar es un proceso doloroso de duelo, que por fin la gente pueda saber qué pasó, puede dejar de esperar que esta persona aparezca algún día y puede poner una flor donde quiera, y saber cómo lo mataron, que al final del cabo es lo que corresponde, es que no hay más que eso, no sé porque tanto miedo a la verdad en España”.

las_manos_p7Concluímos fazendo uma leitura das imagens da escavadeira em serviço, que pontuam a narrativa. A máquina revirando a terra remete à própria ação da câmera ao interrogar o passado. O piloto na cabine, concentrado no processo de dosar a força certa para que o braço mecânico arranque a porção exata de terra, representa o próprio trabalho da cineasta que, atrás das câmeras, busca apresentar ao espectador um processo de desconstrução do “pacto de silêncio” imposto pelos militares sobre a localização das vítimas da ditadura militar. Uma vez que a terra foi revirado, chega a hora de analisá-la, como fez José López Mazz que comparou os níveis do solo a um livro. As mãos sujas de terra nesta disputa pela memória significa um engajamento contra o esquecimento.

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