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Irmãs Malditas, por Vanderlei Henrique Mastropaulo

O enredo de Irmãs Malditas pode se resumir da seguinte forma: María é uma camareira pobre e infeliz que assassina sua irmã Magdalena e assume sua identidade, pois cobiça a fortuna que esta herdou com o falecimento de seu marido, um rico empresário. Após consumar o crime, María se divide entre a culpa e a necessidade de escondê-lo. Esta trama macabra vincula o filme ao chamado cine negro mexicano: fenômeno contemporâneo ao cinema noir praticado nos EUA na mesma época, cujas histórias de crimes e detetives teciam discretos comentários sociais sobre a corrosão moral de seus personagens e, por extensão, de toda a sociedade.

Porém, é importante assinalar que Irmãs Malditas ultrapassa as amarras do que seria uma mera imitação mexicana do cinema noir. O filme apresenta influências de outros terrenos cinematográficos (como o expressionismo alemão e os filmes de Hitchcock da década de 1930) para construir uma narrativa ao mesmo tempo melodramática e de grande densidade psicológica sobre os limites da alteridade (expresso, inclusive, no título original, La Otra).

O diretor Roberto Gavaldón e o escritor e roteirista José Revueltas partiram de um conto de Rian James, para o qual se uniu o grande diretor de fotografia Alex Phillips, canadense que começou a carreira nos EUA durante o período silencioso e se radicou no México após trabalhar em Santa (1931), primeiro longa-metragem sonorizado do país. Gavaldón e Phillips criaram um universo de sombras distorcidas e altos contrastes entre branco e preto, resultando em uma atmosfera soturna desde a cena inicial.

irmas_malditasA primeira imagem vista após os créditos, a de um caixão descendo em uma tumba, já apresenta o tom mórbido de todo o filme. Trata-se do enterro do empresário que deixou sua fortuna para Magdalena. Arrojados movimentos de câmera descrevem a confortável situação econômica dos presentes, trajando roupas finas em um cemitério de ar aristocrático. A harmonia é interrompida com a chegada de María, atrasada e vestida de forma simples, envergonhando Magdalena, e gerando comentários de todosque a qualificam como “a outra”, pois vive à sombra da irmã rica. A barreira econômica é a base do conflito de María, que inveja o conforto e as posses de Magdalena. Esta, por sua vez, despreza o sofrimento da irmã.

Após María cometer o crime (em uma cena com decupagem impecável que narra com suspense meticuloso toda a premeditação do ato fatal), ela passa a viver na residência da irmã, usando suas roupas e joias. Mas a culpa retorna a todo momento, como um fantasma. Neste ponto, o filme se vale de certo tom hitchcockiano, principalmente na forma como a casa, gigante e opressora (com as sombras detalhadas de Alex Phillips), esmaga a protagonista. Ou, ainda, com os inúmeros espelhos que expõem María contra si e contra a imagem de Magdalena, trazendo as lembranças e o remorso. O reflexo já não revela mais quem María é (ou era), mas sim quem ela tenta ser e o que fez para alcançar este objetivo.

O complexo de culpa da protagonista é também agravado por ter declinado do amor que sentia pelo detetive, de quem se afastou para consumar seu plano macabro. Por um desses acasos típicos do melodrama, é justamente este mesmo detetive o responsável pela investigação que poderá incriminá-la.

É necessário ressaltar mais um grande trabalho da atriz Dolores del Río, que se desdobrou na criação de três personalidades: a irmã pobre, a irmã rica e a irmã falsa. Cada uma delas com trejeitos específicos, pois o crime obrigou María a se tornar outra coisa, um disfarce para tentar fugir de si e da culpa, algo intermediário que beira a à esquizofrenia. A pesquisadora cubana Ana M. López chama a atenção para a quantidade de cenas sem diálogos, nas quais a atriz representa os medos, as dores e a frustração de María por meio de expressões faciais e pelo gestual, revelando seu talento consagrado ainda no cinema silencioso (nos EUA), e que, ela resgata agora, no consolidado cinema sonoro do México, para compor uma personagem de extrema complexidade.

Irmãs Malditas foi um contraponto na carreira da atriz, marcada por personagens do interior do México, vítimas de injustiças às quais terminam subjugadas (como em María Candelaria). Aqui ela interpreta mulheres cruéis em um ambiente urbano, vil, barulhento e caótico,  onde a hipocrisia parece ser uma regra de sobrevivência. María é a anti-heroína. Sua vilania catalisa o mal que termina por consumi-la, ao contrário, portanto, de outras personagens vividas pela atriz, que, em geral, são vítimas passivas do mal gerado pelos outros.

Na época, Irmãs Malditas foi comparado a Uma vida roubada (A stolen life, dirigido por Curtis Bernhardt) por conta da similaridade entre as histórias. Porém, ambos foram rodados simultaneamente e se inspiraram em obras literárias distintas. De todo modo, Roberto Gavaldón seguiu uma trajetória brilhante, : seja em melodramas urbanos (En la palma de tu mano, 1950), rurais (La escondida, 1955) ou em uma de suas obras-primas, na qual ele se aventurou pelo território das narrativas fantásticas. Trata-se de Macario (1960), um filme sobre a angústia de um camponês faminto que passa a acumular fortuna após ser agraciado pela própria Morte com o poder de prever quando as pessoas estão prestes a morrer.

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