É proibido fumar

É Proibido Fumar, por Vivian Belloto

“Tudo o que era sólido se desmancha no ar, (…) as pessoas são finalmente forçadas a encarar com serenidade sua posição social e suas relações recíprocas”.

Karl Marx

O segundo longa da roteirista e diretora Anna Muylaert, “É Proibido Fumar”, nos introduz ao cotidiano da vida paulistana e seus aspectos sufocantes de forma divertida. A obra é uma fina crônica crítica e romântica.

O filme, em sua maioria, se ambienta no apartamento da protagonista Baby, interpretada por Glória Pires. Uma mulher solteira que mora sozinha e ocupa seu tempo dando aulas de violão, assistindo à televisão e fumando cigarro. Fica claro desde o começo que Baby representa a estagnação da vida. Seu apartamento, tanto quanto suas vestimentas, aparentam ser de outra época, reforçando a ideia de que ela está parada no tempo, sem nenhuma perspectiva de mudança. Porém, a protagonista leva seu cotidiano sem insatisfações, e parece ter prazer em se manter no estado em que se encontra. Como se o mundo lá fora já não fosse tão importante, uma vez que suas aulas de violão provêm o necessário para comprar seus cigarros, o que satisfaz o seu vício e ainda a permite ter tempo para assistir a futilidades na televisão como fofocas sobre celebridades ou vendas de joias.

proibidoPode-se então comparar a fumaça do cigarro, essa que logo se desmancha no ar visto na introdução do filme, a uma ilusão. Ilusão de que as coisas podem ser fixas e que se mantêm.  A fumaça existe, mas não dura por muito tempo: é tão efêmera quanto o seu prazer em tragá-la. É dessa efemeridade inclusive que se alimenta o vício. Baby vive de uma suposta idealização de felicidade na solidão, com a qual parece não se incomodar. Desta maneira, Muylaert apresenta de forma inusitada o drama de uma personagem sem que a mesma discorra sobre o que passa em sua vida. Torna a existência de Baby um processo orgânico, no qual a sua sensação de felicidade e o tabagismo se tornam elementos que a nutrem e a acomodam.

O maior problema da vida de Baby é a posse de um sofá, pelo qual briga constantemente com suas irmãs Teca (Daniela Nefussi) e Pop (Marisa Orth), o que revela certa imaturidade da protagonista. Entretanto, são essas brigas sem sentido (dado que se trata apenas da posse de um sofá) que evidenciam a instabilidade emocional de Baby, desconstruindo as supracitadas idealizações desta rotina feliz e tranquila. Um sinal deste desarranjo existencial é a discussão que ela tem com a irmã, que cresceu profissionalmente e que vive financeiramente muito bem. Visto que não há motivos concretos para que Baby trate Pop do modo que a tratou, deixando implícito um sentimento de angústia perante a comparação de suas realizações pessoais com as de sua irmã.

O tema da solidão na grande metrópole também é exposto por meio do preconceito que ainda existe em relação às mulheres solteiras. Tanto é assim que a protagonista é acossada pela própria irmã Teca, que casada, acredita estar numa situação melhor de vida (mesmo com o marido a impedindo de trabalhar, por exemplo), o que a leva a importunar Baby com frequentes recomendações de que ela encontre logo um marido. Sendo assim, o filme pontua que em pleno ano de 2009, ano da estreia do filme, a felicidade da mulher que beira seus 45 anos ainda é relacionada a ela ter ou não um marido. A própria protagonista parece compartilhar dessa ideia. Não fosse isso, Baby não veria em seu novo vizinho, Max (Paulo Miklos), também músico, uma chance de mudar de vida.

Surge desta maneira a narrativa que sustentará o filme: o relacionamento indiferente por parte de Max e, por consequência, possessivo de Baby. A princípio o personagem de Miklos não enxerga valores suficientes em Baby que motivem um efetivo relacionamento com ela. A todo instante ele a compara e a inferioriza em relação a sua ex-mulher Estelinha, modelo de mão que transparece a figura de mulher independente e rica, e que é o amor da vida de Max.

O relacionamento entre Max e Baby igualmente expõe o machismo naturalizado que ainda prevalece na grande metrópole. Max é um cinquentão descolado, que toca violão e usa roupas joviais, seguindo um “estilo rock’n roll”. Pede ajuda à Baby para que ela possa fazer uma limpeza em seu apartamento, pois segundo ele próprio não está acostumado com isso (mais um elemento do machismo do personagem). E a todo instante atribui o ciúme e a angustia de Baby a sua TPM (mais uma das piadas grosseiras com que são tratadas as mulheres quando estão incomodando os homens). Não é gratuito que se trate de uma cineasta.

O filme deixa de ser uma crônica romântica para se tornar de certa forma um suspense após uma reviravolta do roteiro, surpreendendo o espectador. A obra foge da mesmice das comédias românticas. Ademais, Muylaert opta em se aprofundar, com bastante pertinência, no drama das personagens.

Fumar se torna no filme um refúgio do indivíduo que se vê só. O fumo não é um inimigo – como diz repetidamente a frase de apoio para os frequentadores do centro de reabilitação para fumantes. Trata-se de quase um amigo, o único capaz de acalmar e levar a pessoa a um estado de graça, uma vez que ela já não se enxerga mais como parte de uma sociedade que, ao mesmo tempo, impede e obriga que as pessoas tenham relacionamentos. É o cigarro que espanta a solidão, sentimento que só existe quando há falta de relações. Ou seja, Anna troca o elemento humano por um elemento de consumo, criando um universo ficcional para criticar essa escolha do cigarro – amplamente divulgado como maléfico tanto para a saúde quanto para certos relacionamentos – em vez da convivência humana.

“É Proibido Fumar” encara a realidade paulistana, mas que também poderia assimilar outra realidade urbana não fosse à paisagem peculiar da cidade de São Paulo, de uma forma diferente. Com uma crítica num tom menor e minimalista (nem por isso menos contundente), já que sua linguagem “comercial” está repleta de significados. Tudo isso com uma trilha sonora regida, em sua maior parte, pelo som delicado do dedilhado do violão instrumento que abarca a música popular brasileira.

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