Inseridas muitas vezes em um contexto geopolítico amplo, as ditaduras latino-americanas tendem a se solidificar no asfalto da história através da frieza de números e datas. Para marcar o que já morreu na pele da atualidade, subjetivar é preciso. Em Post Mortem, o diretor e roteirista Pablo Larraín apresenta a ditadura chilena através do personagem Mario Cornejo, funcionário de um necrotério em Santiago de 1973, ano em que Salvador Allende foi deposto pelo militar Augusto Pinochet. O personagem é interpretado pelo ator Alfredo Castro, que também protagonizou o premiado Tony Manero, do mesmo diretor.
Alheio à movimentação esquerdista que precede o golpe, Cornejo está sempre dentro de seu carro, de sua casa, de si mesmo. O barulho ensurdecedor dos carros militares circulando pelas cinzas ruas de Santiago é contraposto pelo silêncio e pela luminosidade da casa do funcionário, assim como o movimento de manifestantes passa despercebido dentro de seu automóvel. Cornejo bate ? literalmente ? a porta na cara do sonho revolucionário.
Apenas um fator o faz escancarar as portas e sair: as finas pernas de uma dançarina de cabaré que é também sua vizinha. Apesar das constantes investidas de Cornejo, a esquelética Nancy apenas usa o funcionário para satisfazer suas necessidades materiais enquanto está verdadeiramente envolvida com um perseguido político.
Outro momento que abala a apatia de Cornejo é a instalação do regime militar, quando a carnificina invade o seu dia-a-dia. No necrotério, ele tem de transportar pilhas de corpos descarregados a todo o momento pelo exército, além de enfrentar a presença repressora dos militares.
O ápice desse desconforto se dá quando o personagem, acostumado ao registro manual, tem de enfrentar uma máquina elétrica de escrever para registrar o laudo da necropsia de Allende em frente a uma platéia do alto escalão militar. As imagens do corpo do presidente deposto impressionam e a intervenção do exército no conteúdo do laudo nos faz refletir sobre a verdadeira causa de sua morte, que voltou a ser investigada recentemente.
Em um final impactante, Larraín mostra como o afeto não correspondido aliado à pressão psicológica da ditadura sobre os anônimos podem armar um golpe tão fatal quanto os protagonizados pelos grandes nomes da história.
por Martina MedinaServiço
Post Mortem será exibido às 21h desta sexta-feira (15) na Cinemateca e neste sábado (16) às 21h no Memorial da América Latina . A entrada é franca. A programação completa do 6º Festival latino-americano de cinema de São Paul pode ser conferida aqui.
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