Ninón Del Castillo apresentou o filme boliviano "Zona Sur", nesse sábado, 17 de julho, na Sala 1 do Memorial da América Latina. Ela interpreta a personagem principal da película de Juan Carlos Valdivia, ganhadora do prêmio de melhor roteiro e direção internacional do Festival de Sundance deste ano. Após a projeção, em uma rápida conversa com o público, ela fez uma confissão surpreendente, se levarmos em conta sua excelente atuação: Ninón vem do mercado publicitário, até 2009 atuava em comerciais e nunca havia trabalhado em filme ou teatro. Apesar de meia idade, é uma novata na telinha.
O filme trata do dia-a-dia de uma família rica mas com problemas financeiros da zona sul de La Paz, a parte baixa da cidade onde mora a burguesia branca que manda no país por quase 200 anos. Ou mandava, pois a Bolívia experimenta um processo de transformação social e política sem precedentes desde a eleição de Evo Morales, no final de 2005. É justamente esse o pano de fundo do filme de Valdivia.
Ninón Del Castillo é uma mãe divorciada de três filhos, sendo dois adolescentes e uma criança. A moça resiste às tentativas da mãe de torná-la mais feminina e namora outra menina. O jovem só quer aprontar com seus amigos, como mimado filhinho de papai que é. E a criança se relaciona mais com os empregados da casa, tem mania de ficar nas alturas, seja na casinha de madeira em um galho alto de uma árvore, seja em cima do telhado, onde dialoga com seu amigo invisível chamado Spilberg. Detalhe: o menino segura em suas mãos asas feitas de penas e sonha em voar.
Um homem e uma mulher aymara (assim como Evo Morales) trabalham na casa e vivem recebendo ordens da patroa. Ela que mais parece uma perua caucasiana se esforça em se dar bem com os índios que formam a classe subalterna. É até comadre de uma chola. Mas aos poucos vemos os empregados aymaras adquirindo alguns costumes da patroa, como usarem escondidos seus cremes, e se esboça um conflito de classe e étnico. Até que chega uma cholita nova rica gorda, trajando chapéu e vestido rodado tradicionais (justamente a comadre) e faz uma oferta irrecusável pela casa da família. Surge novos candidatos a fazer parte da burguesia boliviana...
por Eduardo Rascov
